O apocalipse tem morada fiscal
Nas últimas semanas, o debate sobre o descontrolo da IA trocou o futuro pelo presente. Em junho, numa avaliação interna, um agente da OpenAI entrou num portal de estatísticas do Medicare australiano, contornou os bloqueios, executou comandos e recolheu ficheiros e credenciais internas. A empresa detetou o incidente em agosto e só avisou o Governo de Camberra em setembro, em cinco parágrafos enviados para uma caixa de correio pública. Pelo meio, a Transluce, um laboratório independente norte-americano, encontrou o rasto de centenas de agentes ligados à OpenAI em coordenação durante meses para chegar a dados de saúde. Noutros casos, centenas de agentes coordenaram-se para fintar restrições. A OpenAI já reconhece dezenas de terceiros afetados.
O cenário de enxame que Dario Amodei, CEO da Anthropic, descrevia, chegou, afinal, sem apocalipse. Segundo o governo australiano, nenhum dado pessoal foi tocado. Mas trouxe algo mais revelador: um portal antigo, um email genérico, uma empresa noutra jurisdição. O risco de que se fala nas cimeiras materializou-se na canalização. É aí, numa subestação ou num contrato de ligação à rede, que se joga a política real da IA.
Nos Estados Unidos, os centros de dados conseguiram uma proeza rara: juntar a direita populista e a esquerda ambientalista. Uns veem nas grandes tecnológicas poder a mais; outros, um sorvedouro de água e energia. As moratórias multiplicam-se. Há muito número atirado sem contexto, mas o problema é velho. Os benefícios são nacionais e empresariais. Mas boa parte dos custos fica à porta de quem lá vive.
Veja-se a água. O Berkeley Lab estima 66 mil milhões de litros consumidos diretamente em 2023. A Google fala em 0,26 ml por pergunta ao Gemini. Nenhum destes números diz o que importa: se a água era potável ou reciclada, se a bacia estava em seca. A unidade que conta não é o prompt. É o projeto.
Na energia, a conversa é mais séria. Os centros de dados consumiam 4,4% da eletricidade americana em 2023, e o mesmo laboratório aponta para 11,8% em 2030. Isto pode prolongar a vida a centrais fósseis. Mas proibir seria um erro. Procurar a análise previsível é, precisamente, o que falta para financiar redes, renováveis e nuclear.
Os dois populismos erram em espelho. A direita arrisca repetir com a computação o erro que cometeu com os semicondutores: consumir o que deixou de produzir. A esquerda confunde sustentabilidade com consumir menos, quando uma economia eletrificada vai gastar mais eletricidade, com menos carbono.
Nada disto obriga a aprovar tudo. Um centro de dados encostado a casas, a gastar água potável em plena seca, movido a gás e isento de impostos não tem defesa. Loudoun County, na Virgínia, mostra o outro caminho: as receitas pagaram escolas e serviços, e o imposto sobre os imóveis desceu cerca de 30% numa década. O condado admite o risco de depender de uma só fonte. Mas fez as contas.
Como lembram Acemoglu e Johnson, Nobel da Economia em 2024, o progresso não gera, por si só, prosperidade partilhada. A resposta é uma abundância com condições: mais energia, redes e computação, com procura real, custos assumidos e o valor fique também no território. A nuvem tem morada.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.