Edyr Augusto transforma leitor em cúmplice em seu novo romance
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A prosa veloz de Edyr Augusto não economiza cenas violentas. Sua literatura , povoada pelas vozes do submundo de Belém , é uma armadilha para quem lê.
"É parte da brincadeira que eu faço para nós vivermos aquela história toda juntos. A minha ideia é chamar o leitor como cúmplice, como se nós dois estivéssemos assistindo àquilo", diz, em entrevista.
O pacto de cumplicidade surge já no início do seu novo livro, "Não nos Deixeis Cair em Tentação", da Boitempo.
O que os leitores testemunharão é o assassinato encomendado de dois jovens seminaristas. O ritmo é vertiginoso. O escritor não prorroga a ação construindo antes um cenário nem apresentando as personagens. O romance não é erguido aos poucos —é para já.
"A primeira página, para mim, tem que ser muito matadora, sabe? Porque é ela que vai provocar. Quando tenho essa primeira página, mergulho. Daí em diante é como desenrolar um fio", conta.
Mas que o leitor não cometa o pecado de confundir autor com personagem. "Eu não sou ligado na morte e também não sou uma pessoa violenta, pelo contrário."
Quem já leu o sucesso "Pssica" e seu romance anterior, "Belhell" , está habituado à cadência frenética de Edyr Augusto. "Pssica" foi transformado em série pela Netflix , em uma produção filmada no Pará, com direção de Fernando Meirelles e Quico Meirelles , mostrando a atuação dos "ratos d’água", bandidos que percorrem os rios do Pará cometendo atos bárbaros.
Características do autor, a velocidade da trama e a linguagem marcada pela oralidade aparecem também em "Não nos Deixeis Cair em Tentação". É o primeiro livro dele depois da estreia de "Pssica" no streaming, em que chegou a ficar entre as séries mais vistas em 68 países.
No novo romance, o arcebispo de Belém contrata um matador de aluguel para assassinar dois alunos do seminário que comanda. Os garotos foram assediados e ameaçam denunciá-lo.
"Posso mandar dar uma surra e nunca mais chegarão perto do senhor", diz Buiú, o contratado. "Acho que só tem um jeito, e por isso vim aqui, muito encabulado, mas certo de que compreenderá minha urgência e de que Deus cuidará de nos proteger", responde o arcebispo.
A moralidade dupla das personagens é uma constante na obra do autor. A corrupção das instituições, como a polícia e o governo, igualmente. "Os Éguas", por exemplo, é um thriller policial que rendeu a Edyr Augusto um prêmio da Universidade de Lyon, na França. Lá, o livro recebeu o nome de "Belem".
"Eles têm uma curiosidade [pela Amazônia] e se deparam ali com uma outra coisa, que provoca muito. Os franceses são muito curiosos a respeito do Brasil. Às vezes, vinham procurando uma coisa até exótica [nos livros], mas não é", diz ele sobre o fenômeno de recepção de sua obra em língua francesa.
Augusto reconhece também a importância da sua editora brasileira para a circulação dos seus livros em outros países. Ivana Jinkings, que comanda a Boitempo, apostou no autor de ficção mesmo à frente de uma editora dedicada sobretudo a livros críticos, alinhados a um pensamento de esquerda.
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