Palmeiras, Lito, futebol, vida e morte
No dia do seu aniversário, o Palmeiras rendeu homenagens ao educador Lito Sousa, diagnosticado com uma doença extremamente rara, incurável e de desenvolvimento acelerado. Lito é Palmeirense apaixonado e busca forças na história do clube, como ele mesmo disse em vídeo exibido no telão do estádio, para superar seu diagnóstico.
A comoção que o drama de Lito está causando fala muito sobre o momento que atravessamos. Lito tem sido celebrado em lugares tão díspares quanto um rodeio em Barretos, esse evento que de progressista não tem nada, até cultos e missas, passando por manifestações em canais de influenciadores de esquerda, defensores da ciência e do SUS. Fazia muito tempo que o Brasil não achava alguém para amar de forma tão unânime. A seleção brasileira masculina foi incapaz de se elevar a esse patamar, não há políticos que sejam capazes, não há sequer ideias que antes seriam apenas naturalmente decentes (como vacinas, direitos humanos, voto feminino) que hoje encontrem ambiente amplamente popular. Mas Lito Sousa chegou lá.
Por quê? Porque Lito trabalha tirando da gente aquilo que o Estado, as instituições e as empresas fazem circular fartamente: o medo.
O medo é o afeto político central hoje. O fim do mundo, geleiras derretendo, pandemias dobrando a esquina, calor insuportável, chuvas bíblicas, homens assassinando e estuprando mulheres cada vez mais, o fascismo sempre à espreita ou já institucionalizado, o salário que nunca dá até o fim do mês, as dívidas que não param de aumentar, assaltos. Medo por todos os lados. O medo nos mantém comportados e domesticados. É conveniente aos que estão no poder.
Mas Lito, apaixonado por aviação e por música, fez um canal no Youtube para tirar da gente o medo e mostrar o óbvio: o que nos une é a nossa vulnerabilidade. São nossas fragilidades que fazem com que nos percebamos humanos. E é dentro desse lugar que podemos nos reconhecer e nos unir.
Já bastante debilitado, Lito gravou um vídeo dilacerante no qual fala que não tem medo de morrer mas sente tristeza por não poder passar mais tempo com o filho. Diz que queria levar mais canetas dele porque, quando jogam bola, o filho sai dando canetas no pai. A imagem é um resumo do que a vida significa. Não tem muito mais do que isso. Passar tempo com quem amamos, brincar, rir, colaborar para que cresçamos e formar memórias. É preciso ser grandão para encarar a morte de frente nesses termos. A vida quis que Lito Sousa mostrasse para toda a sua comunidade como sair em grande estilo. Como ser ao mesmo tempo forte e vulnerável. Como sentir sem medo, como chorar fartamente, como falar de amor sem se acanhar ou se poupar.
Fazendo bom uso de todos os seus privilégios, Lito Sousa está deixando um rastro de amor e significado tornando pública sua doença e sua dor. Ser publicamente homenageado pelo time e pela torcida que você ama é sinal de uma vida de sucesso. Não sabemos quando nossa passagem por esse planeta perdido no Cosmo vai acabar, sabemos apenas que todos e todas nós um dia partiremos. Uns mais cedo, outros mais tarde. Uns de repente, outros lentamente.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Esporte.