Após sofrimento mental na família, psicóloga cria IA de apoio emocional
Psicóloga transforma experiência pessoal de crise emocional familiar em ferramenta de inteligência artificial para apoio mental
Uma trajetória pessoal marcada por crises emocionais que atravessavam gerações de uma mesma família transformou-se na motivação para o desenvolvimento de uma plataforma de inteligência artificial voltada ao apoio emocional. A história começa aos 16 anos, quando Ana Claudia Zani Ramos enfrentou uma tentativa de suicídio e, a partir desse momento crítico, compreendeu que aquilo que a atingia refletia um padrão muito mais profundo e familiar.
Ao conversar sobre aquele episódio grave, Ana Claudia ouviu de pessoas próximas que a situação não representava novidade alguma no contexto de sua família. Diferentes gerações de mulheres conviviam com depressão, pensamentos autolesivos e períodos de intenso sofrimento emocional que permaneciam envoltos em silêncio. Dentro de casa, a repetição desses eventos acabava sendo interpretada como algo inevitável, quase uma herança maldita que se transmitia de mãe para filha.
Da dor pessoal ao desejo de compreensão
A explicação rasa não satisfez Ana Claudia. Ao invés de aceitar aquela narrativa fatalista, ela iniciou uma busca ativa por entendimento. Consultou obras teóricas, buscou apoio psicológico e dedicou-se a investigar as razões por trás daquilo que sua família enfrentava. Essa necessidade de sobrevivência emocional dentro daquele contexto familiar transformou-se em motor para suas escolhas futuras. Conforme ela relata, estudava para conseguir conviver com aquele ambiente, para encontrar explicações que a ajudassem a não sucumbir aos mesmos problemas que acometiam seus parentes.
Ao reconstituir sua história familiar, Ana Claudia menciona a presença de avó, bisavó, tataravó e tia em momentos de vulnerabilidade extrema. Essas memórias incluem episódios de tentativas de suicídio, óbitos e passagens por instituições psiquiátricas. Uma das familiares recebia diagnóstico de transtorno bipolar, porém sem acesso a tratamentos adequados. Mesmo pessoas próximas, como seu próprio pai, demonstravam dificuldade para compreender quando sua mãe enfrentava crises emocionais, interpretando aqueles períodos como falta de esforço pessoal da esposa.
O silêncio que envolvia esses temas e a insuficiência de diagnósticos claros criavam um ambiente de incompreensão mútua. Além de se tratar de histórias distantes no tempo, aqueles episódios alimentavam o medo de Ana Claudia de que ela mesma viesse a passar pelas mesmas situações. Após aquele episódio de risco na adolescência, ela deliberadamente buscou caminhos para cuidar de si mesma. Movida por um desejo profundo de estar viva, ela iniciou um processo de autopreservação.
A busca por ferramentas de cuidado
A psicoterapia entrou em sua vida naquele período, em um contexto que também incluía pressões de sua família em relação a questões corporais. O acompanhamento terapêutico, que inicialmente estava previsto como um programa curto de quatro sessões associado a um regime alimentar, acabou se estendendo significativamente. Ana Claudia permaneceu com a mesma terapeuta por aproximadamente duas décadas, criando uma relação de confiança e continuidade no cuidado emocional.
Ela relaciona o histórico de problemas mentais em sua família a uma alteração no código genético que, à época em que ela enfrentava seus primeiros episódios, ainda não era amplamente investigada pela comunidade científica. O gene responsável nunca foi explicitamente identificado no contexto de sua família, em parte porque naquela época falar sobre doença emocional era considerado tabu. Aquele ambiente social não permitia conversas abertas sobre transtornos psicológicos.
Antes de abraçar completamente a formação em psicologia, Ana Claudia cursou administração durante os anos 1980. Também participou de programas de coaching, mas reconheceu limitações em abordagens que concentravam suas estratégias exclusivamente no alcance de objetivos específicos. Aos 32 anos, ela iniciou sua formação em psicologia e, posteriormente, aprofundou seus estudos em neurociência, buscando compreender os mecanismos biológicos por trás dos comportamentos e das emoções.
O método que originou a ferramenta
A questão central que acompanhava toda sua formação era como reconhecer suas próprias reações emocionais e encontrar maneiras eficazes de lidar com elas. Dessa jornada de aprendizado e autoexploração surgiu uma metodologia que hoje orienta a EITA, uma abordagem que estimula a pessoa a perceber o que sente em um determinado momento, examinar sua interpretação da situação vivenciada e considerar diferentes alternativas antes de tomar uma ação.
Ana Claudia enfatiza que não desenvolveu esse método com motivação comercial, mas como ferramenta de sua própria sobrevivência emocional. A experiência pessoal acumulada, junto ao trabalho desenvolvido com outras pessoas que buscavam apoio, eventualmente sugeriu que aquele processo pudesse ser transformado em um recurso acessível pelo celular, democrático e de fácil distribuição.
A noção de incorporar aquele método ao campo da inteligência artificial começou a tomar forma em 2024, conforme relata Clésio Souza, 33 anos, cofundador da empresa e também residente em São Paulo. Essa parceria marca o momento em que a experiência acumulada de Ana Claudia encontra as possibilidades oferecidas pela tecnologia moderna.
Contexto: depressão, herança familiar e o papel da neurociência
A depressão e outros transtornos de humor afetam milhões de pessoas em todo o mundo. Historicamente, esses problemas permaneceram cercados por estigma, com muitas famílias evitando discussões sobre o assunto. O conhecimento científico sobre a origem desses transtornos avançou significativamente nas últimas décadas, revelando que fatores genéticos, neurobiológicos e ambientais trabalham em conjunto para influenciar a saúde emocional de uma pessoa.
A herança familiar de problemas psicológicos é bem documentada pela pesquisa científica. Pessoas com histórico familiar de depressão ou transtorno bipolar apresentam maior risco de desenvolver essas condições, embora a genética nunca seja o único fator determinante. O ambiente familiar, as experiências traumáticas, os eventos de vida estressantes e o acesso a tratamento adequado influenciam profundamente como essas vulnerabilidades se manifestam.
A inteligência artificial no campo da saúde mental representa um desenvolvimento promissor para expandir o acesso a ferramentas de apoio emocional em contextos onde profissionais humanos são insuficientes ou inacessíveis financeiramente. A Organização Mundial da Saúde reconhece que o comportamento suicida envolve uma complexa interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais, e que intervenções eficazes precisam considerar essa multidimensionalidade.
O que acompanhar
A trajetória de Ana Claudia e Clésio Souza com a plataforma EITA promete desdobramentos interessantes. Será relevante observar como a ferramenta de inteligência artificial será estruturada e disponibilizada, se receberá validação científica através de estudos clínicos, como será recebida pelo público brasileiro que busca apoio emocional, e de que forma a experiência pessoal de Ana Claudia será transposta para um formato tecnológico que possa realmente fazer diferença na vida de pessoas enfrentando crises emocionais.
Principais pontos:
• Psicóloga desenvolveu método de apoio emocional baseado em sua própria trajetória familiar de depressão e comportamento suicida.
• A abordagem EITA estimula a percepção de sentimentos, análise de interpretações e consideração de alternativas antes da ação.
• Projeto de inteligência artificial que torna o método acessível via aplicativo começou a ser desenvolvido em 2024.
• Ferramenta promove democratização de ferramentas de cuidado emocional em contexto onde profissionais de saúde mental são insuficientes.
Matéria produzida pela Redação 5News com apoio de inteligência artificial a partir da apuração de UOL Tilt — os fatos do episódio vêm da matéria original; o contexto usa informação pública consolidada. Veja nossa política editorial. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Tilt.