Canetas emagrecedoras: o desafio do aumento de peso sem a medicação
Eficazes na perda de peso, as canetas emagrecedoras não representam uma solução definitiva. Avolumam-se os estudos acerca da retomada de peso após a interrupção do tratamento. A bola da vez é uma metanálise —uma síntese de estudos— publicada em junho na revista de ciências médicas Cureus.
Os achados traçam um cenário preocupante para quem vê nos medicamentos uma solução rápida: a interrupção das terapias é seguida por aumento de peso. Em média, pacientes recuperam 7,2% do peso corporal um ano após suspenderem as medicações. Numa conta simples, alguém com 100 kg vai engordar 7,2 kg em 12 meses.
O estudo assinala, ainda, a diferença entre manter ou interromper a medicação. Pacientes que pararam de usar os remédios apresentaram ganho de peso 14 pontos percentuais maior do que aqueles que continuaram o tratamento ao longo de 48 a 52 semanas. O grupo que manteve o uso seguiu emagrecendo ou estabilizou o peso.
"São diversos os estudos que apontam nessa direção [do reganho de peso com a interrupção do tratamento]. Já é possível falar em consenso na comunidade médica", afirma Claudia Schimidt, endocrinologista do Einstein Hospital Israelita.
Os dados sublinham o entendimento da obesidade como doença crônica —algo que a Organização Mundial da Saúde já reconhece desde 1948, mas que no debate público muitas vezes ainda é tratado como um problema moral, falta de vontade ou uma escolha individual. Também reforçam o caminho do tratamento contínuo, como já ocorre em condições como hipertensão e diabetes.
A metanálise, assinada por um grupo de pesquisadores da Ásia, América e África, rastreou estudos em cinco bases de dados globais entre janeiro de 2020 e maio de 2026. No final, 17 estudos passaram pelo filtro de qualidade.
A pesquisa revelou que, quanto maior o emagrecimento, maior tende a ser o rebote com a suspensão. A interrupção da tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro) registrou reganho de 13% do peso corporal. No caso da semaglutida, presente no Wegovy e no Ozempic, o reganho variou entre 5% e 7% do peso corporal, dependendo da dose. Para a liraglutida (do Saxenda), reganho de 4,8%; na associação naltrexona e bupropiona (Contrave), reganho de 6,3%.
"Esses números não significam que todo paciente necessariamente irá recuperar o peso perdido. Existe uma grande variabilidade individual", afirma Paula Pessin, endocrinologista do Hospital Sírio Libanês de Brasília. "Mas eles mostram que a suspensão da medicação é um período de maior risco para o reganho."
Para Fábio Carra, endocrinologista do Hospital Nove de Julho, em São Paulo, a retomada de peso representa a própria definição da obesidade como uma condição de longo prazo.
"Quando a gente suspende um tratamento de uma condição crônica e não temporária, a doença vai voltar", afirma. O paralelo é com outras patologias crônicas: se um paciente hipertenso ou diabético interrompe suas medicações de controle diário, a pressão arterial e a glicose tendem a subir.
"Esses medicamentos não atuam apenas no estômago. Eles também agem no cérebro, em áreas que regulam a fome, a saciedade e até o interesse pela comida.
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