‘Amor Possível’ transforma luta de classes em retrato provocativo da cobiça
Exibido na 50ª Mostra de Cinema de São Paulo, o novo filme de Lee Chang-dong retoma a tradição do cinema sul-coreano de investigar as desigualdades sociais
O cinema sul-coreano tem uma longa tradição de transformar a luta de classes em matéria-prima para histórias que expõem as contradições de uma sociedade marcada pela desigualdade. Se Parasita , de Bong Joon-ho , fez disso um retrato ácido da convivência entre ricos e pobres, Amor Possível , novo filme de Lee Chang-dong ( Em Chamas ), exibido na 50ª Mostra de Cinema de São Paulo , retoma esse conflito por uma perspectiva mais íntima, na qual as tensões econômicas atravessam casamentos, relações familiares e desejos que nem sempre conseguimos admitir para nós mesmos.
Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza , o longa acompanha dois casais em extremos opostos da hierarquia social. De um lado, Mi-ok ( Jeon Do-yeon , Sol Secreto ), funcionária de uma usina que tenta manter a vida ao lado do marido desempregado, Ho-seok ( Sul Kyung-gu , Hope ), e do filho pequeno. Do outro, Ye-ji ( Cho Yeo-jeong , Parasita ), uma mulher de classe média-alta que decide realizar um documentário sobre as demissões em massa na empresa onde o casal mais pobre trabalhava, e Sang-woo ( Zo In-sung , Hope – O Primeiro Impacto ), seu marido rico, que possui negócios com os Estados Unidos. O encontro entre essas duas realidades, inicialmente mediado por um projeto documental, acaba revelando que a distância entre elas não se resume ao dinheiro.
A premissa permite que Lee Chang-dong dialogue com uma tradição cinematográfica que encontra em Ken Loach uma de suas referências mais reconhecíveis. Assim como o cineasta britânico, o sul-coreano parte das condições materiais de existência para investigar os efeitos da precarização do trabalho sobre indivíduos e comunidades. A diferença está no modo como amplia esse olhar: em vez de permanecer concentrado no conflito entre trabalhadores e patrões, Lee faz a crise econômica transbordar para o ambiente doméstico, onde a perda de emprego se converte em ressentimento, fragilidade emocional e desgaste afetivo.
O ponto de partida é uma onda de demissões em uma gigantesca empresa industrial, seguida pela repressão violenta a uma greve. Ho-seok está entre os trabalhadores atingidos por esse processo. Dois anos depois, ainda carrega as consequências físicas e emocionais do confronto, incapaz de recuperar o senso de propósito que tinha antes — se tornou um “morto”, como os próprios personagens chamam quem saiu da empresa. Dentro desse sentido figurado, Ho-seok parece ter sido eliminado também da vida social, como se a perda do emprego tivesse retirado dele o direito de existir plenamente.
Sua depressão não aparece como um problema isolado, apartado da realidade social, mas como parte de uma estrutura que retira de um homem o trabalho, a autonomia e a capacidade de imaginar um futuro. Mi-ok chega a descrevê-lo como um fantasma dentro de casa. A interpretação de Sul Kyung-gu encontra força justamente nessa imobilidade: Ho-seok parece existir à margem da própria vida, preso a uma espécie de suspensão que afeta a esposa e o filho.
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