‘Possivelmente o ciclo de corte de juros no Brasil acabou’, diz Mansueto Almeida, do BTG
A dificuldade da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em demonstrar como pretende controlar o crescimento das despesas públicas pode comprometer a continuidade do ciclo de redução dos juros .
O sócio e economista-chefe do BTG Pactual , Mansueto Almeida , avaliou que a política fiscal será determinante para as próximas decisões do Banco Central (BC) e para a trajetória das taxas de longo prazo negociadas no mercado. Ele participou nesta quinta-feira (29) da final da Copa BTG Trader 2026, em São Paulo.
O problema, segundo o economista, é que a ausência de um plano fiscal claro aumenta a incerteza sobre a inflação dos próximos anos. Quando os investidores passam a esperar uma inflação mais elevada no futuro, os juros exigidos para financiar o governo sobem, dificultando o trabalho da autoridade monetária.
“Se a gente não tiver uma redução no gasto público, não vamos nos enganar. Possivelmente, o ciclo de juros do Brasil acabou”, afirma Mansueto, ao avaliar o risco de interrupção de cortes da Selic .
A perspectiva de uma pausa no afrouxamento monetário está associada não apenas à inflação corrente, mas também às expectativas para os próximos anos. O economista destaca que a falta de clareza sobre o ajuste fiscal pode levar os analistas a revisar para cima suas projeções de inflação, afetando as condições necessárias para que o BC continue reduzindo os juros.
“O mercado começa a estimar uma inflação maior para 2027, 2028 e 2029. Quando você puxa para cima a expectativa de inflação, isso afeta o comportamento do Banco Central”, explica.
Nesse contexto, a definição da equipe econômica e a apresentação de medidas concretas para controlar as despesas públicas são importantes para evitar que a incerteza fiscal se traduza em juros persistentemente elevados.
Mansueto argumenta que a política monetária não consegue, sozinha, compensar os efeitos de uma trajetória fiscal considerada insustentável. Se as despesas continuam crescendo em ritmo acelerado, a dívida aumenta, o custo de financiamento do governo permanece elevado e a inflação futura se torna mais difícil de ancorar.
A manutenção de juros elevados afeta tanto o setor público quanto as empresas e as famílias. Para o governo, o custo maior de financiamento amplia a despesa com juros da dívida. Para o setor privado, encarece o crédito, reduz a viabilidade de projetos e desestimula investimentos de longo prazo.
O economista observa que a atividade econômica já vinha perdendo velocidade em razão das condições financeiras restritivas. Uma interrupção prolongada dos cortes da Selic poderia dificultar a retomada do crescimento.
Por outro lado, uma melhora consistente das expectativas fiscais abriria espaço para a continuidade da flexibilização monetária e para uma redução gradual do custo de capital.
Mansueto lembra que o Brasil já atravessou um período em que a combinação entre medidas fiscais e melhora da confiança permitiu uma queda expressiva dos juros. Entre maio de 2016 e maio de 2018, a Selic recuou de 14,25% para 6,5% ao ano.
A experiência, ressalta, não significa que o mesmo movimento possa ser reproduzido automaticamente.
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