A economia do significado
Em uma sociedade hiperconectada, um dos sentimentos mais disseminados é justamente o da desconexão. A economista e pesquisadora britânica Noreena Hertz, em O Século da Solidão, demonstra que a solidão deixou de ser um problema privado para se tornar um fenômeno estrutural das sociedades contemporâneas. A fragmentação das comunidades, o individualismo, a substituição das relações presenciais por interações mediadas por telas e a lógica da competição permanente enfraqueceram os vínculos que, durante séculos, deram sustentação à vida coletiva.
Paradoxalmente, é nesse contexto que os eventos ganham uma relevância inédita. Muitos deles se destacam por deixarem de ser apenas produtos da indústria do entretenimento, do turismo ou da comunicação para recuperar uma função muito mais antiga: reconstruir comunidades.
Muito antes da invenção dos centros de convenções, das arenas contemporâneas, dos festivais de música ou das plataformas digitais, as sociedades organizavam sua existência por meio de rituais. Émile Durkheim mostrou que essas celebrações produziam aquilo que chamou de “efervescência coletiva”, momentos em que indivíduos dispersos experimentavam intensamente o sentimento de pertencer a algo maior do que eles próprios. Arnold Van Gennep e Victor Turner demonstraram que os rituais organizam as passagens da vida e criam estados de comunhão capazes de suspender, ainda que temporariamente, as divisões do cotidiano.
Talvez essa seja a melhor chave para compreender o sucesso de muitos dos grandes eventos contemporâneos. Burning Man, Rock in Rio, The Town, Copa do Mundo, festivais gastronômicos, maratonas, grandes festas religiosas ou culturais mobilizam milhões de pessoas porque oferecem muito mais do que programação cultural e esportiva. Oferecem pertencimento. Criam territórios temporários onde desconhecidos compartilham símbolos, emoções, causas e experiências.
Os temas que estruturam esses encontros também mudaram. Sustentabilidade, diversidade, inclusão, saúde mental, ancestralidade, gastronomia, economia criativa, inteligência artificial e bem-estar deixaram de ser apenas assuntos de palestras ou campanhas institucionais. Tornaram-se acontecimentos e o próprio argumento dos eventos. Os públicos procuram experiências que dialoguem com suas identidades, seus valores e suas esperanças.
Essa transformação confirma uma percepção de Clifford Geertz: a cultura é uma teia de significados construída coletivamente. Os eventos são lugares privilegiados dessa construção. Eles comunicam por meio da música, da arquitetura, da gastronomia, da iluminação, dos objetos, dos cheiros, dos gestos e das narrativas. Antes mesmo que qualquer protagonista fale ao microfone, o evento já está dizendo quem somos e o que valorizamos.
No Brasil, Roberto DaMatta mostrou que festas, procissões, carnavais e celebrações revelam as gramáticas profundas da sociedade. São momentos em que uma comunidade representa a si mesma. Essa observação vale igualmente para os pequenos eventos que continuam organizando a vida social: batizados, casamentos, formaturas, aniversários ou cerimônias de despedida.
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