Nessa história, a culpa não é dos morcegos
Um cão morreu de raiva confirmada no Lago Norte no fim de julho, após dias de sintomas que incluíram apatia, mudança de comportamento e, por fim, paralisia facial.
O diagnóstico foi confirmado pelo Laboratório de Patologia Veterinária da UnB.
Diante do caso, uma reação previsível já começou a circular: a suspeita recai sobre morcegos.
Porém, essa suspeita não tem base nos fatos divulgados.
A nota oficial não identifica a fonte da infecção, mencionando apenas, de forma genérica, que o cão tinha acesso à fauna local, o que motivou o alerta da vigilância ambiental.
Não há confirmação de contato com morcegos nem de mordida por algum deles.
Vale lembrar o que a ciência já sabe sobre esse grupo.
No Brasil, os morcegos formam um grupo diverso, com 186 espécies reconhecidas.
Esses animais têm hábitos e papéis ecológicos completamente diferentes entre si.
Entre essas 186 espécies, apenas três se alimentam de sangue: de aves, no caso de Diphylla ecaudata e Diaemus youngi, e de mamíferos, no caso de Desmodus rotundus.
A fama de transmissor de raiva pertence, na prática, a apenas uma delas: o morcego-vampiro-comum, Desmodus rotundus, principal transmissor de raiva para rebanhos bovinos no país (só em 2022 foram registrados 39 surtos no Rio Grande do Sul e 25 em Mato Grosso).
Num país agropecuário, é fácil entender a origem do estigma.
O problema é gerar medo, propagar pânico e ignorar que a maioria dos morcegos é frugívora, insetívora ou nectarívora, e cumpre função ecológica essencial: controle de pragas como a lagarta Spodoptera na soja, dispersão de sementes de plantas nativas e polinização, como a do pequi.
Qualquer mamífero pode transmitir raiva, não apenas os morcegos.
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