A gaveta que ninguém abre
Caro conviva, Toda casa tem dois tipos de quarto.
Há o que muda de lugar toda semana, a cama que migra de canto, os pôsteres que descem e sobem, a estante que nunca se dá por satisfeita com a própria ordem.
E há o outro.
Aquele que ninguém mexe.
Onde o pó pousa devagar, como se soubesse que ali não deve incomodar ninguém.
Há uma cena banal que se repete em milhares de casas nesta semana: a mãe entra no quarto do filho adolescente e encontra tudo diferente, outra vez.
Sente ainda o cheiro de cola dos pôsteres recém-colados, ouve o arrastar da cama pelo piso antes mesmo de abrir a porta.
Para quem olha de fora, é bagunça, é fase, é teimosia.
A psicologia, porém, tem explicado esse gesto de outro jeito: trocar os móveis de lugar é uma forma concreta de sentir que algo, ao menos ali, ainda obedece.
O mundo lá fora decide o horário da escola, o resultado da prova, o humor de todo mundo em casa, mas a cama, essa, o adolescente decide onde fica.
É autonomia disfarçada de bagunça.
O que a psicologia ainda não explicou tão bem é o segundo quarto.
Esse que fica exatamente como estava.
Eu tenho um desses.
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