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O fundo do oceano chega a exercer 600 vezes a pressão do nível do mar e mesmo assim peixes com pernas improvisadas ficam parados esperando comida no abismo

O Antagonista ·
O fundo do oceano chega a exercer 600 vezes a pressão do nível do mar e mesmo assim peixes com pernas improvisadas ficam parados esperando comida no abismo

Adaptado ao oceano profundo, o peixe-tripé usa raios rígidos das nadadeiras para se apoiar no fundo e capturar alimento com economia de energia

Whastapp Facebook Linkedin Twitter COMPARTILHAR Na escuridão permanente do oceano profundo, onde a água pode esmagar estruturas pouco resistentes e a comida chega em pequenas quantidades, o peixe-tripé parece contrariar a lógica. Em vez de nadar sem parar, ele usa extensões rígidas das nadadeiras para se erguer acima do sedimento e esperar que pequenas presas passem pela corrente, uma estratégia eficiente para sobreviver entre cerca de 4 mil e 6 mil metros de profundidade.

A zona abissal corresponde, em termos gerais, à faixa entre 4.000 e 6.000 metros de profundidade. Nessa região não há luz solar, a temperatura costuma ficar próxima de 2 °C e a pressão aumenta aproximadamente uma atmosfera a cada 10 metros. Isso significa que, perto de 6.000 metros, ela pode se aproximar de 600 atmosferas, ou centenas de vezes a pressão ao nível do mar.

Mesmo assim, esse ambiente não é vazio. Há peixes, equinodermos, crustáceos e outros organismos adaptados a viver com metabolismo econômico e estruturas corporais compatíveis com a alta pressão. No caso dos peixes-tripé, do gênero Bathypterois , a sobrevivência depende menos de velocidade e mais de economia de energia, sensibilidade ao movimento da água e capacidade de capturar alimento raro sem esforço excessivo.

O nome popular vem do modo como esses animais ficam “em pé” sobre o fundo. Eles utilizam raios alongados das nadadeiras pélvicas e da cauda como suportes, formando uma espécie de tripé que eleva o corpo alguns centímetros acima do sedimento mole. Em observações feitas por submersíveis e veículos operados remotamente, esses raios podem parecer flexíveis durante a natação, mas rígidos quando o peixe está apoiado.

Essa postura tem uma vantagem clara: afastar a boca e as estruturas sensoriais do fundo, onde a corrente é mais fraca. Voltado para o fluxo da água, o peixe aumenta a chance de interceptar pequenos animais planctônicos e crustáceos que passam carregados pela corrente, sem precisar perseguir ativamente a presa.

Este vídeo mostra um peixe-tripé observado em profundidade por uma missão do NOAA Okeanos Explorer.

O peixe-tripé adota uma estratégia de espera. Em vez de procurar ativamente alimento no escuro, ele permanece orientado para a corrente e usa o posicionamento do corpo para interceptar organismos pequenos, como crustáceos planctônicos. Registros biológicos indicam que ele se alimenta justamente desse tipo de presa, o que combina com a baixa disponibilidade de recursos do fundo oceânico.

As nadadeiras peitorais, alongadas e projetadas para frente, também parecem ter função sensorial importante. Como a visão é pouco útil ou reduzida em um ambiente sem luz, detectar vibrações e movimentos da água se torna essencial. Em outras palavras, o sucesso do peixe não depende de força ou velocidade, mas de um desenho corporal adequado a um habitat onde quase tudo precisa ser economizado.

Não. A expressão “pernas improvisadas” ajuda a visualizar a cena, mas pode induzir ao erro.

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