O futebol masculino deve a vida ao feminino e é hora de acertar essa conta
Tenho recebido muitas mensagens pelas redes sociais de homens incomodados com a paralisação dos campeonatos masculinos durante a Copa do Mundo das mulheres, que acontece no Brasil entre 24 de junho e 25 de julho de 2027. Ia parar tudo, mas a CBF voltou atrás e vai interromper apenas as séries A e B. O recuo animou alguns: então, por favor, não nos deixem sem o futebol dos machos das séries A e B também. Uma das mensagens que recebi dizia: "Eu sou a favor do futebol feminino, só não entendo por que a Copa precisa parar o calendário masculino".
Ser a favor do futebol feminino é uma opinião que não tem relevância e que carrega, em si, machismos. Não se trata de ser a favor ou contra. Esse tipo de opinião coloca toda a atenção no homem que a emite e nenhuma no que de fato está acontecendo. Não é sinal de caráter ser a favor do futebol feminino. É como dizer que é a favor do amor e sair por aí cometendo violências. Ninguém diz: sou a favor do futebol masculino. O futebol masculino é uma realidade. Podemos gostar ou não do jogo, mas fazer o recorte de gênero para tecer comentários excludentes contém machismo.
A Copa do Mundo das mulheres chega ao Brasil e qualquer pessoa minimamente interessada em justiça social deveria defender que tudo pare. É chegada a hora da reparação histórica.
O futebol masculino se desenvolveu nas costas do feminino. Foram seguidas decisões políticas tomadas por homens em todas as instâncias que decidiram que o feminino seria eclipsado para que o masculino prosperasse. No começo de tudo, mulheres e homens jogavam. Jogos femininos levavam multidões aos estádios. O livro "futebol Feminino no Brasil: entre festas circos e subúrbios. Uma história social", da pesquisadora Aira Bonfim, conta em detalhes, com documentos e imagens, a história do que aconteceu entre 1915 a 1941, quando o esporte foi proibido por lei para as mulheres no Brasil.
Enquanto isso, uma Copa Feminina era realizada no México em 1971 com absurdos índices de sucesso. Logo depois, a FIFA decidiu que bastava. Chega de mulher jogando bola, não faremos mais isso, vamos nos concentrar nos machos. Tudo contado no documentário "1971", que você pode ver na Netflix.
Quem se opõe à paralisação dos campeonatos masculinos para que as mulheres fiquem com toda a atenção está dizendo que essa história de apagamentos não importa.
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