Lenha ainda faz parte da cozinha de milhões de domicílios brasileiros
A transição para fontes modernas de energia avançou no Brasil, mas não chegou da mesma forma a todos os domicílios.
Em 2025, aproximadamente 10,6 milhões de residências brasileiras ainda utilizavam lenha ou carvão para preparar alimentos , segundo estudo publicado na Revista Brasileira de Avaliação.
O número representa uma redução em relação aos anos anteriores, mas revela a permanência de uma dimensão menos visível da pobreza energética no país: ter acesso à eletricidade não significa, necessariamente, ter acesso a formas adequadas, acessíveis e seguras de energia para todas as atividades domésticas.
O artigo “Uso da lenha e pobreza energética no setor residencial brasileiro” , de Luiz Felipe de Menezes Correia da Silva e Adriana Gioda, analisa a evolução desse fenômeno entre 2016 e 2025.
Para isso, os pesquisadores cruzaram informações do Balanço Energético Nacional (BEN) , elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), com dados da PNAD Contínua , do IBGE.
O objetivo foi observar como o uso de lenha e carvão se relaciona com renda e localização dos domicílios.
Os resultados mostram uma forte associação entre renda e dependência desses combustíveis .
Entre os domicílios com renda de até meio salário mínimo per capita, 9,7% utilizavam lenha ou carvão como combustível principal para cozinhar.
Entre aqueles com renda superior a cinco salários mínimos per capita, o percentual era de 0,3%.
O uso complementar — quando a família dispõe de outro combustível, mas também recorre à lenha ou ao carvão — também diminui à medida que a renda aumenta: passa de 17,9% no grupo de menor renda para 4,7% entre os domicílios de maior renda.
A distribuição regional também ajuda a explicar o fenômeno.
Nordeste, Sul e Norte concentram parcela importante dos domicílios que ainda recorrem à biomassa para cozinhar.
Segundo os autores, entretanto, a relação não pode ser explicada apenas pela renda.
O uso desses combustíveis também aparece entre famílias de renda média e alta, indicando que fatores culturais, hábitos alimentares e condições climáticas podem influenciar as escolhas energéticas.
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