Por Você: quando novas narrativas revelam o que já é real e possível
Ligar a televisão às sete da noite e encontrar uma mulher negra, médica, bem-sucedida e moradora de uma área nobre do Rio de Janeiro deveria ser uma imagem banal.
Ainda não é.
Por isso, Bela, personagem de Sheron Menezzes em Por Você, interessa menos pelo ineditismo de uma protagonista negra e mais pelo lugar que ela ocupa quando a história começa.
Ela não está tentando chegar.
Já chegou.
Tem profissão, dinheiro, formação, autonomia e reconhecimento.
Sua existência não começa na falta.
Essa diferença é importante porque durante muito tempo a dramaturgia brasileira reservou às mulheres negras um repertório estreito de possibilidades.
Elas cuidavam da casa dos outros, criavam os filhos dos outros (nesta novela o caminho é por um pacto de irmandade), aconselhavam protagonistas, serviam mesas, limpavam apartamentos e desapareciam da narrativa quando sua função estava cumprida.
Mesmo quando eram personagens afetivamente importantes, frequentemente conhecíamos muito mais sobre a família que elas serviam do que sobre seus próprios desejos.
A imagem da mulher negra cuidadora possui uma história anterior à televisão.
A figura da “mãe preta”, e sua correspondência com o estereótipo norte-americano da “mammy”, transformou cuidado compulsório em suposta vocação afetiva.
A violência dessa construção está justamente em romantizar uma relação produzida pela desigualdade: mulheres negras foram historicamente colocadas para cuidar e, depois, essa imposição passou a ser representada como uma característica quase natural de suas personalidades.
Bela também cuidará.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.metropoles.com — o conteúdo pertence a Metrópoles.