Mendonça, que se reuniu com Vorcaro, diz que depoimento foi sem a PF por “graves intimidações”
A crise de confiança que abala o Supremo Tribunal Federal não para de gerar desdobramentos para além da situação difícil em que se encontra o ministro Alexandre de Moraes, empurrando o também ministro André Mendonça para uma encurralada institucional sem precedentes.
Enredado pela revelação de um encontro reservado de duas horas que manteve em São Paulo com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em março de 2025, o magistrado tenta agora conter os incêndios provocados pelas estranhas circunstâncias de um depoimento “secreto” recente colhido dentro da penitenciária da Papudinha, em Brasília.
A oitiva, conduzida pelo juiz auxiliar João Azambuja, dispensou intencionalmente a presença da Polícia Federal sob a alegação oficial de que o empresário estaria enfrentando supostas “graves intimidações”.
A manobra atípica de ouvir o empresário preso sem a participação da equipe de investigadores gerou forte mal-estar e desconfiança nos bastidores da corporação policial.
Integrantes do órgão veem no procedimento uma tentativa de contornar os canais formais de investigação e desenhar tratativas paralelas que flertam com uma delação premiada à revelia das autoridades policiais.
Diante do rebuliço, a assessoria do ministro relator apressou-se em defender a legalidade do ato, argumentando que a oitiva atendeu a um pedido emergencial formulado pelos próprios advogados do banqueiro e que o afastamento dos agentes públicos estaria amparado em diretrizes e normativas do Conselho Nacional de Justiça expedidas em 2015 e 2024.
Para tentar mitigar o ruído gerado pela oitiva realizada à revelia dos policiais, Vorcaro foi submetido, dias depois, na sexta-feira (28), a um novo interrogatório, desta vez conduzido formalmente por videoconferência pelos agentes da Operação Compliance Zero.
No entanto, o remendo institucional não foi suficiente para dissipar a névoa de suspeição que paira sobre a conduta do gabinete do ministro, sobretudo após a poeira baixar sobre o duro contra-ataque sofrido por Mendonça no campo da opinião pública.
Apenas um dia após dar vazão a relatórios contendo diálogos do colega Alexandre de Moraes com o controlador do Master, cartada vista por interlocutores da Corte como um ataque político desmedido, o próprio relator viu sua vidraça ser estilhaçada.
Reportagem divulgada pelo jornalista Paulo Motoryn, revelou que Mendonça e Vorcaro estiveram juntos, em março de 2025, numa reunião de portas fechadas para debater ativos de precatórios de interesse direto da instituição financeira.
Ao confirmar a veracidade do encontro em nota oficial, alegando ter se limitado a escutar as demandas do banqueiro antes de assumir a relatoria do processo na Corte, o ministro acabou preso na mesma teia de questionamentos éticos que tentou lançar sobre seu par.
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