Após cobertura pró-Flávio Bolsonaro, Folha publica editorial preocupada com declarações
A recente inflexão analítica observada no posicionamento institucional da Folha de S.Paulo revela um dilema histórico que o jornalismo corporativo brasileiro parece condenado a reiterar.
Após meses de uma cobertura ostensivamente enviesada ao longo do primeiro turno eleitoral, marcada por uma condescendência explícita em relação à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) e pela fabricação contínua de sobressaltos e fricções no ecossistema político do Partido dos Trabalhadores, o periódico publica um editorial atravessado pelo medo.
O veículo, que se orgulha de ostentar o epíteto de “o maior jornal do Brasil”, subitamente descobre os riscos de uma retórica abertamente autoritária do postulante do PL, demonstrando aflição diante das menções a uma dita “redemocratização” conduzida por quem descende, direta e ideologicamente, do elogio sistemático à Ditadura Militar e às práticas de tortura do regime de 1964.
Esta apreensão tardia expõe uma contradição de origem na postura editorial da imprensa tradicional.
Ao longo de meses, o debate público foi alimentado com narrativas que atenuavam condutas graves de Flávio Bolsonaro, relegando a um plano secundário escândalos financeiros de grande envergadura, a exemplo do omisso tratamento dispensado aos desdobramentos envolvendo o Banco Master.
Simultaneamente, operou-se uma campanha incansável de desgaste antipetista que, na prática, atuou para normalizar a figura de um político cujo projeto autocrático nunca foi mantido sob sigilo.
Ao minar as bases da estabilidade democrática por meio do tensionamento diário, o jornal ajudou a sedimentar o terreno onde agora floresce o suposto favoritismo da extrema direita para a decisão de segundo turno, pavimentando o acesso do senador à chefia do Executivo.
Com a consolidação da liderança nas pesquisas, Flávio passou a dispensar o disfarce da moderação.
As manifestações do candidato assumiram um tom de altivez perigosa para quem ainda sequer obteve a validação das urnas na etapa final do pleito.
Propor a “redemocratização” de uma nação estruturada sob a égide do pacto constitucional de 1988, caracterizada por quatro décadas de estabilidade institucional e pela vigência de garantias fundamentais exemplares, não constitui mera figura de linguagem ou tropeço retórico.
Trata-se de um ruído calculado que ecoa a ambição manifesta, tanto do filho quanto do pai, figura notória por homenagear torturadores e questionar os direitos humanos, de perpetuar um mesmo agrupamento político no controle do Estado brasileiro ao longo de sucessivas décadas.
É nesse ambiente de incerteza fabricada que surge o tom sobressaltado do editorial da Folha.
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