'Quinze Dias': por que parece estranho ver pessoas gordas sendo desejadas?
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"Quinze Dias", adaptação do livro de Vitor Martins, chegou à Netflix nos últimos dias e, desde então, passou a chamar atenção não só pela história de amor adolescente entre Felipe e Caio, mas também por uma discussão que saiu das telas e foi parar nas redes sociais: a de que é impossível que uma pessoa gorda seja escolhida como parceira romântica de alguém magro.
Na história, Felipe é um adolescente gordo e tímido que enfrenta inseguranças e bullying na escola. Durante as férias, ele precisa dividir a casa com Caio, seu vizinho e antigo crush, por quem é apaixonado desde a infância. A convivência entre os dois faz com que sentimentos antigos voltem à tona e dá início a uma história de primeiro amor e descoberta.
Mas a obra, que recebeu diversos elogios por sua representatividade e narrativa leve e emocionante, logo virou alvo de comentários questionando justamente a possibilidade de um personagem acima do peso viver uma história de amor com alguém considerado dentro dos padrões de beleza.
Só que, fora das telas, as pessoas não são escolhidas para relacionamentos por uma equipe de elenco ou departamento responsável por garantir que os integrantes de um casal tenham o mesmo corpo, cor de pele ou nível de escolaridade.
O problema é que, durante décadas, filmes, séries e outras formas de entretenimento ajudaram a associar protagonistas românticos a determinados tipos de aparência.
O efeito disso vai além de simplesmente não se enxergar na tela. Quando um grupo aparece pouco como objeto de desejo, a própria possibilidade de ser desejado pode começar a parecer incomum. É como se alguns corpos fossem apresentados como naturalmente românticos, enquanto outros precisassem de uma explicação para ocupar o mesmo lugar.
Isso importa porque aquilo que vemos repetidamente na ficção pode ajudar a construir a nossa percepção sobre o que é esperado na vida real. A chamada teoria do cultivo, desenvolvida pelo pesquisador George Gerbner, parte justamente dessa ideia. Uma meta-análise publicada em 2021 pela Universidade de Oxford encontrou uma associação consistente entre a exposição à televisão e as concepções que as pessoas formam sobre a realidade social.
Quando determinados corpos e relacionamentos aparecem repetidamente como protagonistas, enquanto outros quase nunca são mostrados, isso pode ajudar a estabelecer uma ideia do que parece natural ou desejável.
É por isso que representatividade não serve apenas para que quem está na tela se reconheça, mas também para ampliar a visão de quem está assistindo. Ver uma pessoa gorda como protagonista de uma história de amor, por exemplo, não torna a situação menos real, mas mostra uma possibilidade que sempre existiu e só teve pouco espaço no audiovisual.
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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.