Meta sai vitoriosa de ação por 'vício nas redes' e dividirá ônus com pais
Pelo placar do julgamento de hoje, a Meta perdeu: US$ 17 bilhões (R$ 85 bilhões) até cabe no bolso da empresa, mas é um valor indigesto.
Só que basta olhar o resultado com mais calma pra perceber que o verdadeiro placar é outro: a companhia de Mark Zuckerberg saiu do tribunal de Oakland, na Califórnia, com o modelo de negócio intacto e com a sua parcela da conta de cuidar da saúde mental dos adolescentes repassada, mais uma vez, para pais e mães.
Vinte e nove procuradores-gerais processaram a Meta em 2023 acusando a empresa de projetar Instagram e Facebook para viciar crianças e adolescentes , de mentir sobre os riscos dessas plataformas e de coletar dados de menores de idade sem autorização. O julgamento começou na semana passada, chegou a colocar no banco de testemunhas o chefão do Instagram, Adam Mosseri, que serviu de aperitivo para o prato principal, o depoimento do próprio Zuckerberg. A Meta preferiu não chegar lá.
Fechou um acordo bilionário: US$ 16,6 bilhões (sobre o processo de "vício nas redes sociais") mais US$ 459,3 milhões (referente à ação do processo da Cambridge Analytica). Além de pagar ao longo de dez anos, a quantia é uma fração (8,5%) do faturamento global da empresa em 2025. Também está bem longe da tragédia que se anunciava, entre US$ 200 bilhões, nas contas dos procuradores, e US$ 1,4 trilhão, nos cálculos da própria Meta. Entre o pior cenário da empresa e o valor final fechado, a Meta vai arcar com 0,01% do apocalipse financeiro que cogitava —e anunciava— publicamente.
Só que cada um desses itens vem com uma válvula de escape: os pais. É a família quem decide se o autoplay fica ligado, quem pode estender o limite diário de duas horas, quem flexibiliza cada uma dessas travas.
Não estamos falando do Brasil, e, sim, dos EUA, mas a Constituição Brasileira consolida uma visão oportuna sobre o assunto: é responsabilidade do estado, dos responsáveis e da sociedade (aqui incluídas as empresas) garantir segurança e bem-estar a crianças e adolescentes.
Isso obviamente não tira de pais e mães o direito de decidir por seus filhos enquanto eles não podem. Mas, quando essa divisão compartilhada de tarefas não funciona, é deles a sobrecarrega do dever de vigiar por onde suas crianças andam e fazem na rua e na internet.
A Meta não desligou seu algoritmo para adolescentes, muitas vezes comparado a cassinos. Ela só colocou um adulto pra vigiar a porta, sabendo, como comprovam os próprios documentos internos revelados no processo, que boa parte desses adultos é tão dependente das plataformas quanto os filhos que deveriam supervisionar.
O julgamento vinha sendo tratado como o "momento tabaco" das redes sociais, uma referência ao acordo de responsabilização que a indústria do cigarro teve que fechar com todos os estados americanos nos anos 1990. Se elas mudaram seu jeito de operar e se anunciar, foi por causa desse processo .
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