Lugar de cocô de cachorro não é na sola de sapato
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O que mais tem no meu bairro é farmácia, cabeleireiro e cocô de cachorro na calçada. Uma farmácia em cada esquina para remediar as indigestões da vida. Um cabeleireiro a cada quinhentos metros para aparar os excessos e disfarçar as faltas. E cocô de cachorro para denunciar o grau de civilidade da sociedade.
Fico imaginando quanta merda passa na cabeça dos "tutores" (é assim que se fala, né?) que tratam a calçada como um banheiro público do pet.
Tenho algumas hipóteses: 1) Acham que as fezes do cachorro são naturais, biodegradáveis, adubo para o asfalto. 2) Têm preguiça de carregar o saquinho com as fezes até encontrar uma lixeira. 3) Têm aflição, nojo ou não querem borrar o esmalte; 4) Consideram o cocô é eco-friedly porque alimentam o cãozinho com ração orgânica. 5) Dane-se, ninguém está vendo.
Esses animais —refiro-me aos donos— deveriam ser retirados do convívio urbano até aprenderem que viver em sociedade exige, no mínimo, administrar o próprio lixo. Lato sensu.
Eu ando muito a pé. Minha trajetória virou um percurso de obstáculos, que me obriga a saltitar entre minas terrestres, como naquelas brincadeiras de infância de "é proibido pisar na pedra branca".
Na semana passada, inaugurei um tênis de corrida que demorei um tempão para comprar. Investimento suado. Dois quarteirões e zás: ploftch. Carimbei o cocô com a sola do meu tênis novo. Não vou descrever a escultura do cãozinho para não traumatizar meu querido leitor. Mas posso garantir que o autor da obra fez uma dieta rica em fibras. Gastei muito palito de churrasco para conseguir deixar a sola branca.
Fiquei tão indignada com o episódio que abracei a causa. Virei fiscal de calçada.
A primeira vítima foi uma mulher vestida de academia, com uma coleira numa mão e celular na outra. O poodle farejou, aprovou o terreno e fez o serviço. Ela nem olhou para o chão e continuou a caminhada. Interpelei-a: "Você não vai limpar?" Respondeu que não tinha como controlar as necessidades fisiológicas do seu bebê. Concordei, ninguém estava pedindo que ela controlasse o intestino do cachorro. Eu argumentei o óbvio e pedi que ela pegasse o saquinho e recolhesse as fezes. "Não costumo andar com saquinho", respondeu ela, com cara de quem considerou o meu pedido uma afronta. Ela seguiu. O cocô ficou. As moscas festejaram.
Mais tarde, um labrador gigante presenteou o bairro com um outro monumento. O dono, jovem de boné virado e fone de ouvido no volume máximo, nem me ouviu quando tentei minha segunda investida. O labrador olhou para mim. Juro que olhou. Havia nos olhos dele uma espécie de constrangimento. Pois é, o cachorro é movido pelo instinto —às vezes funciona melhor do que o faro da consciência de um bípede.
Há os mais educados que recolhem, é verdade. Eles pegam as fezes, colocam num saquinho de plástico, capricham no nó e depois jogam em um canto da calçada. Pensam: "cumpri minha parte".
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www1.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha · Cotidiano.