Sem dragagem e com El Niño, crescem riscos para transporte de grãos no Tapajós
Operadores portuários avaliam que a ausência de dragagens no rio Tapajós , uma importante hidrovia para as exportações de soja e milho do Brasil, aumenta os riscos de interrupções no transporte nos próximos meses, em uma conjuntura de El Niño , que geralmente reduz vazões na bacia amazônica.
O diretor-presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), Jesualdo Conceição Silva, alertou que o governo federal não tem concedido autorização para dragagens destinadas a desassorear trechos do rio, um dos canais para acesso aos portos do Arco Norte, região cada vez mais relevante nas exportações do agronegócio do Brasil.
Com a previsão de meteorologistas de um El Niño forte, o setor teme a repetição das interrupções e atrasos no transporte registrados em 2023 e 2024 devido ao baixo nível do Tapajós.
“O pior está por vir. A gente está vendo que os níveis estão baixando e por isso que foi aceso o alerta para fazer a dragagem”, disse Silva em entrevista à Reuters, em referência à previsão de um El Niño forte.
Empresas como Amaggi, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus Company transportam pela hidrovia cerca de 15 milhões de toneladas de grãos brasileiros por ano, segundo dados do setor. O Brasil é o maior exportador de soja e um dos maiores de farelo de soja e milho.
No Tapajós, os grãos são carregados em barcaças nos terminais em Itaituba (PA), seguindo posteriormente para os portos de exportação em Santarém e Barcarena, no Pará.
O Ministério de Portos e Aeroportos confirmou que o governo federal decidiu não realizar, neste momento, a dragagem no rio Tapajós, no trecho entre Itaituba e Santarém.
A decisão foi tomada, disse o ministério em resposta a questionamento da Reuters, após avaliação das informações técnicas, diálogo entre os órgãos envolvidos e escuta de povos indígenas e comunidades tradicionais da região.
A posição do ministério se segue a protestos de indígenas, que ocuparam instalações da Cargill em Santarém, no início do ano, para protestar contra um decreto que abriria os rios amazônicos para dragagens. Após a manifestação, a medida governamental foi revogada.
“Como a gente tem um cenário crítico de escassez de chuvas, a gente vai entrar numa criticidade de perda praticamente total da navegabilidade de carga naquela região, e a gente não tem o que fazer com essas cargas”, disse Silva, afirmando que seria inviável transferir todo o volume de grãos para o modal rodoviário em caso de interrupção da navegação no Tapajós.
Considerando o pior cenário de interrupção por quatro meses, até os níveis dos rios voltarem a subir, um volume de 5 milhões de toneladas, ou um terço do que é transportado por ano pelo Tapajós, estaria afetado, segundo estimativa da MoveInfra, que reúne empresas do setor de infraestrutura.
Os prejuízos estimados, com os custos adicionais que incluem redirecionamento de cargas para outros portos do Sudeste, além de atrasos nos embarques, poderiam atingir até R$850 milhões, no pior cenário, segundo a MoveInfra.
O presidente da ABTP afirmou que, no momento, não há interrupções na navegação do Tapajós.
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