terça-feira, 25 de agosto de 2026 📬 Resumo no TelegramPortaisSobre🌓
🇧🇷 BR ▾
ÚLTIMAS
Últimas

Só vi fantasmas duas vezes na vida, e um deles foi o de Guimarães Rosa

UOL Notícias ·
Só vi fantasmas duas vezes na vida, e um deles foi o de Guimarães Rosa

Jornalista e doutora em estudos da literatura, é autora de 'A Cabeça do Santo' e 'Oração para Desaparecer'

Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

Eu só vi fantasma duas vezes na vida: uma mulher de quem não sei o nome e o Guimarães Rosa . Se vi algum outro, tratei como se fosse um ser vivo e não entrará nas estatísticas. Dos dois, lembro muito bem.

A senhora aparece para mim desde que sou criança, em sonhos. Eu estava quase para fazer uma cirurgia para tirar o miolo da garganta, amígdalas, adenoides, isso tudo. Sonhei com ela me dando conselhos.

Mandou fazer gargarejos em vez de tomar mel, que eu sempre detestei. Mandou também usar lambedor de ervas e açúcar. Essa palavra, lambedor, dá trabalho aos tradutores quando uso em livro. É só isso mesmo: um tipo de xarope caramelado, você ferve plantas medicinais na calda açucarada e disfarça o amargor.

Quando acordei dessa consulta com a senhora, ela estava ao meu lado na cama. Disse que eu já estava curada e saiu do quarto. De fato, a cirurgia não foi mais necessária.

Lembro dos cabelos grandes, da roupa larga, da saia. Depois eu sonhei com ela avisando que eu estava grávida de uma menina, dizendo para escolher o nome entre Camila ou Carina, com "C". Ficou Camila. Quase todos os dias da gravidez a senhora misteriosa estava ali perto. Nunca mais a vi.

Com Guimarães Rosa foi uma experiência muito mais impactante. Eu tive a honra e a sorte de passar três dias no apartamento onde ele escreveu a maior parte de sua obra, no Rio de Janeiro .

Está muito bem conservado pela família, com mobiliário embutido intacto, o mesmo que aparece em várias fotos do Rosa. Assim que cheguei lá, com minha mala para três dias, fui até o local onde ele trabalhava e onde faleceu. Tive todas as confirmações pela sua neta, Vera Tess, minha querida amiga.

Eu estava realmente sentada diante do lugar de sua criação, o chão do escritório onde ele lutou contra o Diabo ao escrever "Grande Sertão: Veredas" . Uma mesa nova ocupa o lugar da escrivaninha onde ele morreu.

Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias

Pois ali, diante de um dos lugares mais mágicos da literatura brasileira, passou um senhor de pijama azul, indo até o quarto onde coloquei minhas coisas. Perguntei à Vera se por acaso seria o dormitório dele. Não, ela disse, mas é o quarto onde ele foi velado. Confirmou também a preferência do avô pelos pijamas azuis. E pediu que, caso ele voltasse, eu dissesse que ela manda um beijo e tem saudades.

Foi só isso. Eu só o vi passar na minha frente. Fiquei na dúvida, sem saber se ia embora correndo ou se pedia a ele pra aparecer de novo. Não fui embora, mas não o chamei.

Logo eu, tão cheia de valentias, com medo do espectro de alguém com quem eu sonho tanto. Porque, antes desse dia, eu sonhei várias vezes com ele —inclusive me ensinando a fazer bolo de laranja, o meu favorito.

Ler a notícia completa no UOL Notícias ›

Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.

Mais de UOL Notícias

Ver tudo ›

Mais em Últimas

Ver tudo ›