Rapper Stelly expõe vivência itinerante e rejeita padrões femininos nas faixas autorais do primeiro EP, 'Ruas do bairro'
Rapper Stelly lança primeiro EP com narrativas sobre vida itinerante e resistência aos padrões impostos ao universo feminino do hip hop
Três anos depois de seu primeiro lançamento, a artista paulista Stephanie Aguiar Costa, conhecida no universo musical como Stelly, está pronta para apresentar seu trabalho de maior amplitude. No dia 18 de setembro, chega às plataformas o "Ruas do bairro", seu primeiro EP em formato fonográfico. O trabalho marca um novo capítulo em uma trajetória que começou ainda em 2020, quando a rapper iniciou sua atuação nas batalhas de rima, e ganhou maior visibilidade em 2023 com a divulgação de "Questão de tempo", que se tornou seu primeiro single de carreira.
A vida de Stephanie, porém, é bastante anterior às letras que hoje a definem como artista. Nascida em São Paulo, ela vivenciou ao longo da infância e adolescência uma situação de instabilidade econômica familiar que a obrigou a mudar de residência diversas vezes. Essa sequência de deslocamentos geográficos moldou sua percepção de mundo e, consequentemente, o conteúdo criativo que agora apresenta no novo projeto. Atualmente, a rapper está estabelecida em Palhoça, localidade litorânea de Santa Catarina que integra a região metropolitana de Florianópolis, onde tem desenvolvido sua carreira artística.
Um projeto construído sobre vivências reais
O novo EP apresenta seis composições autorais, todas fundamentadas no estilo trap, formato que se tornou central no hip hop contemporâneo. As músicas que integram "Ruas do bairro" são "Caminhoneira", "Movimento avançado", "Vida cara", "Dose de tequila", "Party bi" e "Mandei avisar". Dentre essas faixas, as três primeiras são trabalhos onde Stelly aparece como única autora, enquanto as demais resultam de colaborações com outros artistas da cena.
As parcerias do EP envolvem João Victor Alves da Silva e Lucas Aguiar Costa, este último conhecido pela alcunha de Lczin no meio musical. Na faixa final, "Mandei avisar", Stelly conta com a participação especial de Rayssa Raabe Duarte Raimundo, artista oriunda de Campinas também atuante como cantora e compositora, que utiliza o nome artístico Duarte 019. O trabalho foi construído sob a produção musical de MDC Oficial, Safê e Dupre, formando uma parceria criativa que buscou consolidar a sonoridade do projeto.
A crítica ao machismo estrutural no hip hop
Para além da vertente puramente musical, Stelly utiliza o EP como plataforma para problematizar questões que afetam especificamente as mulheres atuantes no universo do hip hop. A rapper expressa sua frustração com dinâmicas que observa na cena, apontando uma desigualdade substancial nas cobranças direcionadas às artistas mulheres em comparação com seus colegas homens. Segundo ela, as rappers enfrentam uma exigência contínua de comprovarem sua legitimidade e seu direito de ocupar espaço no gênero, seja através da qualidade de suas composições, da atitude que demonstram ou das ações que praticam. Ao mesmo tempo, elas se deparam com um conjunto de padrões comportamentais e estéticos que não são impostos aos homens com a mesma intensidade.
"Cansei de ver mulheres tendo que provar o tempo todo o lugar delas na cena, seja pelas letras, pela postura ou pelas atitudes, enquanto são cobradas a seguir padrões que não são impostos aos homens da mesma forma", sintetiza Stelly esse conflito que a motiva criativamente. Essa crítica não é meramente superficial em sua obra, mas permeia o conteúdo lírico do EP, funcionando como eixo condutor das narrativas apresentadas.
O tom desafiador das primeiras composições
Na faixa "Caminhoneira", que abre a sequência de composições autorais do EP, Stelly estabelece o tom da obra. Em seus versos, ela apresenta uma postura de determinação e autossuficiência, rejeitando a necessidade de validação externa para sua jornada artística. O verso em questão sintetiza essa atitude: "É que vou passar de nave onde sempre quis andar / Eu vou viver minha vibe até ela acabar / É que vou cantar minha música até ela passar / Que meu vulgo é do legado e eu não vou mudar". Através dessa enunciação, Stelly comunica uma recusa deliberada em adequar-se aos padrões estabelecidos, mantendo a cabeça erguida e sem pedir permissão para ocupar o espaço que considera seu por direito.
Contexto: a luta das mulheres no hip hop brasileiro
O cenário que Stelly descreve reflete uma realidade bem documentada no hip hop brasileiro e internacional. Historicamente, o gênero emergiu como um espaço predominantemente masculino, e a entrada de mulheres nesse universo sempre se deu acompanhada de desafios particulares. A exigência de que mulheres rappers demostrem maior capacidade técnica, coesão narrativa ou originalidade do que seus pares homens é fenômeno recorrente, assim como a pressão para que se conformem a papéis específicos ou padrões visuais determinados. Paralelamente, artistas homens frequentemente gozam de maior liberdade criativa, menor escrutínio sobre sua conduta pessoal e acesso mais facilitado a oportunidades de colaboração e visibilidade.
A vida itinerante que Stelly vivenciou, marcada por múltiplas realocações e instabilidade econômica, também representa uma camada adicional de desafio enfrentada por artistas originários de contextos socioeconômicos precários. A transformação dessa experiência em matéria-prima criativa, como Stelly faz no EP "Ruas do bairro", constitui um ato de ressignificação pessoal e artística, convertendo vulnerabilidade em força narrativa.
O que acompanhar
O lançamento de "Ruas do bairro" em 18 de setembro marca um ponto de inflexão na trajetória de Stelly. A recepção do EP junto ao público e à crítica especializada em hip hop poderá indicar como a mensagem da artista ressoa entre ouvintes e influenciadores da cena. Também será relevante observar se as parcerias estabelecidas neste projeto, particularmente a colaboração com Duarte 019, evoluem para futuras cooperações ou marcam o início de uma rede criativa mais ampla. Adicionalmente, o desempenho comercial das faixas em plataformas de streaming pode refletir o grau de conexão que o público estabelece com as narrativas apresentadas. Por fim, posicionamentos públicos posteriores de Stelly sobre a recepção do trabalho e possíveis novos projetos deverão ser acompanhados como indicadores de sua consolidação enquanto artista relevante na cena do hip hop brasileiro.
Principais pontos:
• A rapper Stelly lança seu primeiro EP "Ruas do bairro" em 18 de setembro, trabalho que reúne seis composições autorais fundamentadas no estilo trap.
• Nascida em São Paulo e atualmente radicada em Santa Catarina, Stelly vivenciou múltiplas mudanças de endereço ao longo de sua vida devido à instabilidade financeira familiar.
• O EP apresenta crítica explícita aos padrões desproporcionais impostos a mulheres rappers, que enfrentam cobranças contínuas para comprovar legitimidade na cena do hip hop.
• As seis faixas do projeto contam com participações de produtores como MDC Oficial, Safê e Dupre, além de colaborações com artistas como Duarte 019.
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