A conta que vai chegar
Machado de Assis escreveu que “a vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam”.
Talvez alguns dos sinais mais importantes sobre o futuro do Brasil estejam justamente onde poucos eleitores costumam olhar: na curva de juros, na inflação implícita e nas contas públicas.
Prezado leitor de VEJA NEGÓCIOS , esta coluna procura conversar com você sobre as histórias do dinheiro, os desafios do presente e as transformações que estão moldando o futuro.
Já discutimos quem controla o futuro, atravessamos as fronteiras da tecnologia e procuramos compreender os sinais emitidos pelos mercados.
Desta vez, gostaria de aproveitar este valioso espaço para propor uma reflexão sobre o que poderá acontecer a partir de 2027.
Para isso, voltaremos a um dos períodos mais difíceis da história econômica brasileira.
Não apenas aos livros ou às estatísticas, mas às lembranças de quem viveu os governos Sarney e Collor trabalhando em uma tesouraria bancária e presenciou os efeitos da inflação sobre empresas, famílias e decisões cotidianas.
Depois, retornaremos ao presente e observaremos os números fiscais, a curva de juros negociada na B3 e a curva zero da Anbima.
A curva não vota, não escolhe candidatos nem conhece antecipadamente o resultado das eleições, mas traduz expectativas sobre inflação, política monetária, crescimento, dívida pública e risco.
Talvez Machado tivesse razão: para compreender o que poderá acontecer em 2027, precisamos enxergar justamente onde as grandes vistas não pegam.
Continua após a publicidade Durante aquele período, comprei as cadeiras de uma sala de jantar em dez cheques prefixados.
A cada mês, o valor escrito no cheque permanecia exatamente o mesmo, enquanto a inflação e os salários aumentavam.
Quando paguei a última prestação, ela representava quase nada em relação à renda.
A situação podia parecer vantajosa para quem comprava, mas revelava uma das maiores distorções da inflação: o ganho de alguém frequentemente correspondia à perda de outra pessoa.
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