Obrigado, Piu! E nos desculpe por só pensarmos em futebol neste país
Alison dos Santos é o primeiro brasileiro na história a quebrar um recorde mundial de pista no atletismo. Eu sei lá por que tive a sorte de ver ao vivo. Estava na maca na fisioterapia e a TV estava na Diamond League. Meu fisioterapeuta, o Caio, foi atleta. Quase chegou às Olimpíadas nos 200m rasos. Uma lesão acabou com o sonho. Ele girou a carreira para outro universo e hoje vive de cuidar dos corpos de outras pessoas, atletas e não atletas.
Somos o país do futebol. Quer dizer. Nem sei se somos o país do futebol mais. Mas somos um país que só fala de futebol. Tem feriado quando é jogo de Copa do Mundo. O Brasil para para ver Gana x Panamá. Pouca bola é dada para todos os outros esportes, exceto naquelas três semanas de Olimpíadas, quando todos viram patriotas especialistas. São até hoje chamados por alguns de "esportes amadores". Pois é.
Piu deveria ser parado na rua por todos os lugares em que passasse. Deveria ganhar muito mais dinheiro do que um monte de jogador de futebol mequetrefe que temos que ficar assistindo todas as semanas. Nada contra o futebol mequetrefe. Tudo contra grades de TV com 250 partidas de futebol por dia e pouquíssimo espaço para "o resto".
Sim, tem uma Fórmula 1 aqui e ali, tem bastante tênis na TV (fechada), uns vôleis, outro dia vi que a Globo estava passando skate ao vivo em um domingo. Mas e nas escolas? E o Ministério do Esporte? O que fazemos, como sociedade, nas esferas privada e pública, para que o esporte seja o grande fio condutor que uma sociedade doente, pobre e violenta como a nossa precisa? Que pais investem (os que conseguem) de verdade em atividades esportivas e não só empurrar o filho para algum preenchimento de agenda?
Vi o Piu ao vivo. Vi a alegria contida do Caio. Que estava trabalhando. E levantou da cadeira de supetão. "Ele quebrou o recorde mundial. Ele quebrou o recorde mundial". Esse recorde é do Piu. E é do Caio. É de todas as crianças de São Joaquim da Barra, de onde veio o Piu. De todas as crianças de Novo Horizonte, de onde veio o Caio. De todas as crianças que correm por aí, em pistas mal cuidadas, esburacadas, de todos os pais e mães que se desdobram para de alguma maneira permitir que seus filhos e filhas persigam algum tipo de sonho no esporte, principalmente os esportes abandonados, largados, sem apoio de ninguém.
E se os empresários, pastores e fazendeiros do Brasil botassem metade do dinheiro que botam na política, para bancar candidaturas e lobbies, no esporte de suas cidades? E se os políticos de fato usassem as bizarras emendas parlamentares para programas de profundidade e transformação?
Depois de ter visto o recorde ser quebrado, foi caindo a ficha para mim. Quando contei para meus filhos, caiu um pouquinho mais. E quando mostrei a narração de Álvaro José no canal "X Sports", que também transmitia a Diamond League, caiu de vez.
Voltei 40 anos no tempo. Voltei aos tempos em que não desgrudava os olhos da Bandeirantes. Em que ouvia o Álvaro José e companhia o dia todo.
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