As origens e a lógica do grupo controle
Em fevereiro deste ano, na estreia do jornalista Ernesto Paglia à frente do programa Roda Viva, da TV Cultura, os holofotes recaíram sobre a cientista Tatiana Sampaio.
A especialista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) estava em destaque desde meados de 2025, quando começaram a circular reportagens sobre sua pesquisa com a polilaminina , uma molécula que, em estudos iniciais, mostrou indícios de que poderia ser usada para tratar lesões medulares.
Na berlinda, Sampaio foi questionada sobre a necessidade de submeter a substância a estudos clínicos controlados.
“Vamos supor que esses 30 pacientes todos voltem a andar.
Você teria coragem de fazer um estudo clínico controlado?”, rebateu a pesquisadora.
Próxima fase O laboratório Cristália anunciou no último dia 16 que vai iniciar o estudo de fase 1 com a polilaminina.
A partir de 24 de setembro, cinco pacientes adultos – que tenham sofrido uma lesão grave na medula há menos de 72 horas – devem ser recrutados para participar da pesquisa, que tem como principal objetivo avaliar a segurança do tratamento.
O estudo será realizado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e na Santa Casa de Misericórdia.
As declarações reacenderam um debate que atravessa a história da ciência: quando é possível (ou aceitável) dispensar um estudo nesse formato? Atualmente, pesquisas clínicas randomizadas com grupo controle são consideradas uma metodologia padrão-ouro, ou seja, a mais confiável para descobrir se um tratamento é realmente eficaz, mesmo com os dilemas éticos que a rondam.
Mas nem sempre foi assim.
“Existe a impressão de que se trata de uma metodologia atemporal.
Mas, na verdade, é algo muito recente”, aponta Luiz Alves Araújo Neto, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professor de história da medicina na Casa de Oswaldo Cruz.
“Até o século 19, o processo de introdução de novas tecnologias e medicamentos era essencialmente clínico: terapias eram testadas caso a caso”, explica o historiador.
Foi no século 20 que esse jeito de fazer as coisas passou a ser questionado e uma nova forma de produção de conhecimento na medicina começou a ser aplicada, a do ensaio clínico como o conhecemos hoje, no qual é possível destacar três características: o grupo controle, a randomização e a ideia de duplo-cego.
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