A mão estendida, e o passado que permanece
Há brigas que terminam com um pedido de desculpas e com um abraço. E há outras que, seis anos depois, ainda terminam com uma mão estendida no vazio. Foi assim que Vasco e Santos começaram o duelo neste domingo, em São Januário.
Neymar estendeu a mão, Thiago passou direto. Não houve discussão, apenas um silêncio. Aquela não era uma mão qualquer, era a mão de Neymar; o jogador que, em dezembro de 2020, saiu de campo chorando, carregado em uma maca, depois de uma entrada de Thiago Mendes, nos acréscimos de PSG x Lyon. Thiago foi expulso pelo VAR e, no dia seguinte, pediu desculpas, dizendo que não teve intenção de machucar o brasileiro.
Entretanto, a história não terminou ali. Vieram as ameaças de torcedores, inclusive contra a família de Thiago, e o episódio ficou marcado na memória dos dois.
Em fevereiro deste ano, eles se reencontraram na Vila Belmiro. Bastou um gol de Neymar e um gesto de silêncio para a história antiga sair novamente do armário. Os dois discutiram, e Neymar acusou Thiago de ter prometido que iria "quebrá-lo" novamente. Depois, foi direto: chamou o volante de "babaca" e lembrou a entrada de 2020.
Ontem, em São Januário, mais um capítulo diferente. E o detalhe mais curioso está no próprio Instagram de Thiago Mendes, já que no feed do jogador existe uma foto de 2022 ao lado de Neymar. Depois da partida, internautas resgataram a fotografia e foram à página de Thiago fazer a pergunta, entre ironia e provocação: afinal, ele era fã de Neymar ou "hater"? A resposta talvez ninguém saiba. Entretanto, a internet adora transformar uma imagem antiga em prova de contradição.
E a história ganhou ainda um capítulo internacional. Torcedores europeus repercutiram o episódio e muitos saíram em defesa de Neymar. Alguns classificaram a atitude de Thiago como irrelevante; outros disseram não entender o "constante desrespeito" que o atacante recebe no Brasil. É curioso: a rivalidade nasceu na França, voltou ao Brasil e acabou sendo comentada novamente na Europa.
E então veio o futebol de traz o resultado de 3 a 0 do Santos em cima do Vasco, com a participação de Neymar nos dois últimos gols.
Não é preciso dizer que foi vingança, pois seria simplificar demais. Entretanto, o futebol tem dessas ironias. Enquanto Thiago recusava a mão de Neymar, o Santos respondia dentro de campo. Nenhum dos dois precisa gostar do outro, esquecer Paris ou apagar a discussão da Vila. O fato é que um aperto de mão não muda o passado, mas reconhece o presente. E essa é a maior ironia, já que , no futebol, a bola sempre rola para frente. Sendo assim, são os jogadores é que insistem em jogar olhando para trás.
Domingo, Neymar estendeu a mão, e Thiago decidiu não apertar. E, por alguns segundos, antes de Santos 3 a 0, o que estava em jogo não era futebol. Era o passado que insiste em permanecer, criando um futuro bem diferente do que seria mais bonito de escrever.
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