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Só entenderemos a crise política se formos capazes de falar de gênero

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Só entenderemos a crise política se formos capazes de falar de gênero

As festas do banqueiro Daniel Vorcaro, a proximidade promíscua dele com homens extremamente poderosos nos três poderes, o desvio de dinheiro público para fins pessoais, o papel das mulheres sejam elas namoradas ou trabalhadoras sexuais. Tudo o que precisamos saber sobre o poder está concentrado em detalhes no caso do banco Master.

Não estamos falando de uma simples crise política, ética, econômica, social, moral. Estamos falando de uma crise de gênero; uma crise que começa com os papeis desempenhados por homens e mulheres dentro dessa sociedade. Não podemos corrigir essa rota sem corrigirmos esses papeis, essas expectativas.

Nascer homem ou nascer mulher determina um tipo de comportamento. Não é uma determinação biológica, é uma determinação fabricada. Homens são socializados para serem provedores, para conquistarem o mundo, para competirem entre si, para medir força e desempenho, para ficarem com muitas mulheres porque o capital simbólico deles vem desse lugar. Mulheres são criadas para serem dóceis e amáveis, para cuidarem da casa, para casarem, para ter filhos, para servir sexualmente a seus maridos. Ficar com muitos homens degrada seu capital simbólico.

De saída, produzimos um problema sério. Homens precisam ficar com muitas mulheres; mulheres não devem ficar com muitos homens e o capital social de ambos vêm dessa dinâmica. Vai dar ruim logo ali, percebem?

Competir, acumular, concentrar poder, mater o pau duro, penetrar muitas mulheres, trair, admirar homens cheios de autoridade. A expressão que se popularizou recentemente e que fala em formar aura não é inocente e representa essa dinâmica do macho-alfa - aquele que é idolatrado por outros homens.

Não é por acaso que mulheres em situação de muito poder se comportem de formas diferentes, ainda que haja exceções (um beijo para Margareth Thatcher que descansa agora no colo de Lúcifer). Não se trata de uma diferença biológica, mas sim de uma diferença de criação. Mulheres não crescem dentro de uma frátria que contém machos-alfa que devem ser celebrados e honrados através de rituais que envolvem práticas de violências contra os mais fracos. Homens são socializados para amar uns aos outros, para admirar uns aos outros, para festejar uns aos outros, para querer a atenção uns dos outros. Mulheres são socializadas para olhar em volta e perceber o ambiente a fim de fazer a gestão emocional. Mulheres são socializadas para saber existir dentro do desconforto, para trabalhar em conciliações, para buscar o bem comum.

O núcleo familiar é um núcleo que doutrina sobre hierarquias e papeis de gênero. Papai manda, mamãe serve e obedece, filhos reproduzem heterossexualidade e repetem depois o que aprenderam em casa. Os Epsteins e Vorcaros nascem desse lugar. A traição masculina é central para que o poder seja distribuído. Festas, uísques, charutos, trabalhadoras sexuais e, em casa, suas famílias cristãs assistindo ao Jornal Nacional aprendendo que o problema do Brasil é a corrupção.

A corrupção deve ser combatida, mas ela é um subproduto do patriarcado, que é esse sistema descrito acima.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Esporte.

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