Miró rompeu convenções e conquistou espontaneidade com disciplina severa
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[RESUMO] Grande exposição na Faap, com pinturas, esculturas, gravuras, tapeçarias e fotografias, muitas delas inéditas no Brasil, traz a preciosa oportunidade de rever a trajetória de Joan Miró, pintor espanhol que, diante de um mundo em convulsão, manteve-se fiel a seu projeto estético, um dos mais rigorosos da arte do século 20.
Numa mesa estreita, em Palma de Maiorca (Espanha), em junho de 1941, Joan Miró terminava mais uma folha de papel de 38 por 46 centímetros.
Umedecia o suporte, esfregava-o com trapos e restos de tinta até obter um fundo nebuloso, atmosférico, e sobre essa névoa dispunha, com a paciência de um relojoeiro, o ofício do pai, uma rede de signos: olhos, estrelas, discos negros e vermelhos ligados por linhas finas como as de um mapa celeste.
Deu à obra o nome "Algarismos e Constelações Apaixonados por uma Mulher". Do lado de fora, a Europa ardia. Dentro do papel, tudo era exatidão.
A folha pertence à série das "Constelações", 23 guaches de formato idêntico iniciados em janeiro de 1940 em Varengeville-sur-Mer, vilarejo normando onde Miró se refugiara com a mulher, Pilar Juncosa, e a filha.
Quando as colunas alemãs romperam a frente francesa , em maio daquele ano, o pintor tomou um dos últimos trens para o sul levando as folhas prontas numa pasta, atravessou a fronteira e foi terminar a série em Palma e depois em Mont-roig, na Catalunha.
A ironia é dupla, e ele a conhecia bem: para escapar de uma ditadura que avançava, refugiou-se dentro de outra, já instalada, que tinha os seus amigos nas listas e os seus cartazes republicanos na memória.
Viveu discreto, quase clandestino, sob o sobrenome da mulher. E pintou, naqueles meses, as obras mais serenas de toda a arte europeia do período.
Diante do desabamento geral, Miró não respondeu com o grito —respondeu com a miniatura, a repetição, o método. Nenhuma das 23 folhas denuncia coisa alguma; todas afirmam, contra a evidência dos fatos, que ainda existe céu e que ele pode ser medido.
Há quem chame isso de evasão, e o próprio Miró não recusaria a palavra: a primeira folha da série, de janeiro de 1940, chama-se justamente "A Escada da Evasão". Mas a escada, em Miró, nunca foi metáfora de deserção.
Ela aparece pela primeira vez encostada a uma árvore em "A Fazenda" (1921-22), a tela que fecha a juventude do pintor. Miró nasceu em Barcelona em 1893, filho de um ourives que o destinou ao comércio.
O rapaz cumpriu dois anos como guarda-livros numa firma de ferragens até que o tifo e um colapso nervoso o devolveram, em 1911, à masia [construção rural espanhola] que a família comprara em Mont-roig, entre oliveiras e alfarrobeiras, de frente para o mar de Tarragona.
Foi ali que decidiu ser pintor, e foi dali que nunca mais saiu inteiramente. Na escola de arte de Francesc Galí, em Barcelona, aprendeu a desenhar objetos que segurava nas mãos atrás das costas, sem vê-los —desenhar pelo tato, contra o olho. A lição ficou: em Miró, a forma nunca é o que se vê, é o que se apalpa, se conta, se enumera.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.