Por que Brasil abre a Assembleia Geral da ONU? 3 teorias podem explicar
O Brasil deve voltar a abrir o Debate Geral da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) nesta terça-feira, quando o presidente Lula (PT) discursa em Nova York.
Lula será o primeiro chefe de Estado a falar na terça-feira, depois das falas de António Guterres e do presidente da Assembleia Geral, Khalilur Rahman. Em seguida, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deve discursar na mesma sessão.
A abertura brasileira virou tradição, mais do que uma regra escrita, e não há registro formal único que explique a escolha. Ao longo do tempo, porém, três teorias se consolidaram para explicar por que o Brasil costuma falar antes de todos os demais países, inclusive do anfitrião.
Nos primeiros anos da ONU, criada em 1945, nenhum país queria ser o primeiro a discursar, e o Brasil teria se oferecido para abrir a fila. O país foi o primeiro orador em 1949, 1950 e 1951, o que ajudou a consolidar o hábito.
A ONU diz que "costumes" foram surgindo no Debate Geral, incluindo a ordem dos primeiros a falar. A organização aponta que, desde 1955, a sequência tradicional de abertura é: secretário-geral da ONU, presidente da Assembleia Geral e, na sequência, Brasil e Estados Unidos — o país-sede.
Outra explicação associa o "privilégio" ao diplomata brasileiro Oswaldo Aranha, por sua atuação em 1947, na segunda Assembleia Geral. Ele presidiu a Primeira Sessão Especial da Assembleia, quando se iniciou o processo que levaria à criação do Estado de Israel.
A condução de Aranha, com apoio à solução de dois Estados e esforço para evitar o adiamento da votação, rendeu elogios de países e entidades sionistas. O brasileiro chegou a ser cogitado como candidato ao Nobel da Paz, o que alimenta a tese de que o reconhecimento teria se refletido na tradição de o Brasil abrir os discursos.
Uma terceira teoria trata a abertura brasileira como uma compensação política por o país não integrar o Conselho de Segurança da ONU como membro permanente. O professor Matias Spektor, coordenador do curso de Relações Internacionais da FGV (Fundação Getulio Vargas), descreve a tradição como um tipo de "prêmio de consolação".
Spektor afirma que houve debate, na criação da ONU, sobre a possibilidade de o Brasil ter assento permanente, mas a proposta foi vetada. "Isso foi uma troca feita na época da criação da ONU, quando foi criado o Conselho de Segurança, com seus cinco membros permanentes. Houve uma discussão sobre se o Brasil seria um membro. Mas Churchill e Stalin vetaram a proposta. Como forma de reconhecer a ascendência do Brasil na América Latina, na época, optou-se então por criar essa regra", afirma.
O Brasil não foi o primeiro a discursar em duas ocasiões, nas sessões de 1983 e 1984, quando o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, falou antes. Fora essas exceções, o país manteve a posição de abertura, seguida tradicionalmente pelos EUA.
O lugar de primeiro discurso também já teve peso simbólico em momentos marcantes, como em 2011, quando Dilma Rousseff abriu a sessão e se tornou a primeira mulher a fazer o discurso de abertura.
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