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'Odisseia' de Nolan não está preocupada com a Grécia Antiga ou com fidelidade a Homero

Folha de S.Paulo ·
'Odisseia' de Nolan não está preocupada com a Grécia Antiga ou com fidelidade a Homero

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Nascida em Portugal, é poeta e tradutora. Tem doutorado em literatura grega antiga com tese sobre 'Ilíada', de Homero. Traduziu para o português os 'Hinos Homéricos' e publicou, no Brasil, o livro 'Adriano' (Editora 34)

Christopher Nolan criou uma "Odisseia" visualmente impressionante . Críticos concordam que há cenas que lembram obras de Francisco de Goya —caso do ciclope Polifemo—, Paolo Uccello —os gigantes lestrigões—, Ingmar Bergman —o Hades—, as paisagens marítimas de William Turner, a antiguidade artificial dos exteriores de Giorgio de Chirico, os areais oníricos de Salvador Dalí.

Também é notório que certos enquadramentos acrescentam ecos de outros filmes seus, sobretudo " Dunkirk " e " Oppenheimer ", de que, em certo sentido, " A Odisseia " é uma continuação anacrônica. O acréscimo da narrativa pormenorizada do cavalo de Troia, apenas indiretamente narrada no poema, traz ainda a ressonância das guerras americanas no Oriente Médio.

Acrescentemos que o vilão principal, Antínoo —papel de Robert Pattinson —, com um guarda-roupa que lembra o de Cômodo em " Gladiador ", é um desertor do serviço militar, que não saberia o que fazer com o trono de Ítaca se o obtivesse, e que a preocupação central do filme é com o declínio da civilização da Idade do Bronze .

É assim evidente que as preocupações de Nolan não se situam na Grécia Arcaica. Nisso, o realizador procede com a liberdade de um aedo, isto é, de um poeta da Antiguidade capaz de criar um poema como "Odisseia".

A mínima centelha de inspiração que acompanhou Nolan, segundo o próprio, teria sido retirada da tradução de Emily Wilson , de uma expressão do primeiro verso, "a complicated man" —um homem complicado—, solução para o intraduzível "polytropos" —cuja versão mais feliz poderá talvez ser encontrada como paráfrase no título de um ensaio sobre "Odisseia" de Pietro Citati, "a mente colorida". A helenista, entretanto, assinou uma crítica negativa ao filme para a London Review of Books .

Boa parte do drama que há para ser encontrado no poema gira em torno do prazer e da dor que Ulisses, ou Odisseu, encontra na sua mente colorida. A outra parcela desse drama é um festim de linguagem. Nolan preserva o tema da dor em relação com a culpa e tende a omitir o resto. O seu protagonista é um homem de poucas palavras.

O conceito moral mais importante do filme reinterpreta, sem grandes alterações, um costume fundamental da Grécia Arcaica, a xênia, aquilo que na película se chama de lei de Zeus, e que eram laços de uma resiliência extraordinária entre hóspede e anfitrião, que se iniciavam a partir da troca de presentes e se estendiam por gerações.

É o costume que Páris viola ao raptar Helena de Troia e aquele que os pretendentes de Penélope ofendem na casa de Ulisses. Não é claro, no entanto, que a ênfase na ofensa a essa lei de Zeus não acabe por justificar, no filme, um exercício de justiça enquanto forma de vingança.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.

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