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Ciência

Atividade de genes virais incorporados ao genoma humano pode indicar piora do vitiligo

Agência FAPESP ·
Atividade de genes virais incorporados ao genoma humano pode indicar piora do vitiligo

Atividade de genes virais incorporados ao genoma humano pode indicar piora do vitiligo

Pesquisadores vinculados a instituições brasileiras com apoio da FAPESP descobriram uma associação inédita entre a expressão de sequências genéticas virais que fazem parte do DNA humano e o agravamento do vitiligo, doença autoimune que causa destruição das células produtoras de pigmento na pele. Os resultados, publicados na revista Frontiers in Cellular and Infection Microbiology, sugerem que o monitoramento da atividade desses genes virais pode funcionar como um indicador do avanço da condição, abrindo perspectivas para o desenvolvimento de novos testes diagnósticos e abordagens terapêuticas.

A Descoberta e Seus Mecanismos

A investigação identificou que a ocorrência e a intensidade das manchas brancas características do vitiligo guardam relação direta com o nível de atividade de genes derivados de vírus que se encontram naturalmente integrados ao genoma humano. Segundo a pesquisa coordenada por Luiz Henrique da Silva Nali, docente da Universidade Santo Amaro (Unisa), foi detectado que um membro específico dessa família de genes virais, denominado HERV-W, apresenta maior expressão em indivíduos diagnosticados com vitiligo comparado àqueles sem a doença.

Concomitantemente, outros dois membros dessa família de genes virais, conhecidos como HERV-H e HERV-K, demonstraram padrão inverso: sua expressão foi reduzida nos pacientes acometidos por vitiligo em relação ao grupo controle formado por pessoas não afetadas pela condição. Esses achados estabelecem um padrão distinto de ativação gênica que diferencia indivíduos portadores da doença daqueles que não a possuem.

Um dado particularmente relevante emergiu da análise comparativa entre pacientes cujas lesões cutâneas permaneceram estáveis versus aqueles que experimentaram piora progressiva. Nos casos em que o vitiligo se agravou, a expressão do gene HERV-W atingiu níveis ainda mais elevados do que nos pacientes com manifestações da doença mantidas sob controle. Essa correlação entre intensidade de expressão gênica e progressão clínica confere um potencial preditivo a esse marcador biológico.

O Vínculo com a Inflamação Sistêmica

A investigação desvendou um mecanismo adicional que conecta a atividade aumentada do HERV-W a processos inflamatórios mais intensos. Os pesquisadores constataram que quando a expressão desse gene viral alcançava patamares mais altos, observava-se simultaneamente um aumento na concentração sanguínea de citocinas pró-inflamatórias. Essas moléculas são normalmente produzidas pelo sistema imune para combater microrganismos invasores, porém quando presentes em quantidade excessiva, causam lesão às próprias células e estruturas teciduais do organismo.

Embora o mecanismo causal preciso permaneça ainda não totalmente esclarecido pela pesquisa, a constatação de que maior expressão de HERV-W se correlaciona com níveis elevados de inflamação oferece uma possível explicação para por que determinados pacientes experimentam deterioração de suas lesões. Essa cadeia de eventos molecular sugere uma via pela qual a ativação de sequências virais ancestrais poderia amplificar a resposta autoimune destrutiva característica do vitiligo.

O Papel Evolutivo dos Genes Virais Humanos

Para compreender plenamente a relevância dessa descoberta, convém examinar a origem e a função desses genes virais incorporados ao genoma humano. Os elementos conhecidos como HERVs, sigla que em inglês designa retrovírus endógenos humanos, representam sequências genéticas que se originaram de infecções virais ancestrais que ocorreram há milhões de anos na linhagem evolutiva que conduziria aos seres humanos modernos.

Durante o curso da evolução, esses vírus conseguiram integrar-se ao genoma germinal dos primatas ancestrais, tornando-se assim parte permanente da herança genética transmitida de geração em geração. Ao longo de períodos imensamente longos de tempo evolutivo, essas sequências virais acumularam mutações e modificações que reduziram sua capacidade patogênica original. Atualmente, os HERVs compõem aproximadamente oito por cento da totalidade do genoma humano.

Embora a retenção evolutiva desses elementos virais pudesse parecer paradoxal, a hipótese predominante entre os pesquisadores sugere que esses genes foram preservados porque forneceram alguma forma de vantagem adaptativa. Possivelmente funcionaram como mecanismos de proteção contra infecções virais contemporâneas ou contribuíram para funções fisiológicas essenciais ao longo da história evolutiva humana. Atualmente, a maioria dos HERVs cumpre tarefas relevantes para a manutenção da saúde geral do organismo.

Entretanto, essa presença de sequências virais no genoma também carrega potencial patogênico latente. Sob determinadas circunstâncias ainda não completamente mapeadas, a ativação desses genes virais pode servir como fator desencadeador de processos autoimunes, nos quais o sistema imunológico do indivíduo passa a atacar estruturas normais e necessárias do próprio corpo.

Contexto: O Vitiligo e Sua Natureza Autoimune

O vitiligo constitui uma condição dermatológica crônica na qual o sistema imune do paciente equivocadamente dirige uma resposta destrutiva contra os melanócitos, células especializadas responsáveis pela síntese e deposição do pigmento melanina na epiderme. Quando esses melanócitos são progressivamente destruídos, ocorre perda localizada de coloração da pele, originando as manchas brancas que constituem a manifestação visual mais reconhecível da doença.

A natureza autoimune dessa condição significa que não se trata de infecção causada por agentes externos, mas sim de uma desregulação do próprio sistema de defesa do organismo. Essa característica fundamental torna o vitiligo particularmente desafiador para estratégias terapêuticas convencionais, uma vez que o alvo da resposta destrutiva reside no interior do próprio corpo do paciente.

O impacto do vitiligo ultrapassa as considerações puramente dermatológicas. Embora não seja uma doença potencialmente fatal, o vitiligo causa significativo impacto psicológico e social aos acometidos devido às alterações visíveis na aparência que provoca. A procura por tratamentos eficazes representa uma necessidade clínica relevante, tornando investigações que desvendem os mecanismos subjacentes à patogênese da doença particularmente valiosas.

Os HERVs já haviam sido associados previamente a outras condições autoimunes, como esclerose múltipla, sugerindo que a desregulação de genes virais endógenos representa um mecanismo mais amplo na etiopatogenia de doenças autoimunes. A identificação dessa ligação no contexto do vitiligo expande o entendimento sobre como genes virais ancestrais podem influenciar a manifestação de patologia autoimune.

O que Acompanhar

Os resultados dessa pesquisa abrem caminho para diversos desdobramentos potenciais nos próximos períodos. Em primeiro lugar, a possibilidade de que a expressão de HERV-W funcione como marcador de progressão da doença pode levar ao desenvolvimento de testes laboratoriais que permitam estratificar pacientes conforme seu risco de agravamento. Tais testes poderiam melhorar significativamente a capacidade de prognóstico clínico e permitir intervenções terapêuticas mais precoces naqueles identificados como portadores de maior risco.

Em segundo lugar, a elucidação dos mecanismos pelos quais a ativação de HERV-W contribui para amplificação da resposta inflamatória pode sugerir novas estratégias terapêuticas. Se for possível desenvolver formas de atenuar seletivamente a expressão ou a atividade desse gene viral especificamente em pacientes com vitiligo, essa abordagem poderia representar uma estratégia inovadora de tratamento direcionado.

Adicionalmente, estudos subsequentes poderão investigar se padrões similares de desregulação de HERVs ocorrem em outras doenças autoimunes, potencialmente revelando um mecanismo patogênico compartilhado entre diferentes condições. Tal descoberta teria implicações amplas para o desenvolvimento de terapias que pudessem beneficiar múltiplas populações de pacientes portadores de distintas doenças autoimunes.

Principais pontos:

• Pesquisa brasileira descobriu que genes virais incorporados ao genoma humano apresentam maior atividade em pacientes com vitiligo em comparação com pessoas saudáveis

• A expressão elevada do gene HERV-W correlaciona-se com agravamento das lesões cutâneas e aumento de inflamação no sangue do paciente

• Esses genes virais, denominados HERVs, foram incorporados ao genoma humano há milhões de anos durante a evolução e constituem aproximadamente oito por cento do DNA humano

• Os resultados abrem perspectivas para desenvolvimento de testes preditivos e novas abordagens terapêuticas direcionadas para o vitiligo

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Resumo reescrito automaticamente pelo 5News a partir da matéria original. A matéria completa, com todo o contexto, está em agencia.fapesp.br — o conteúdo pertence a Agência FAPESP.

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