Números contrariam pânico do mercado, mas ciclo do consumo dá sinais de fim
Reação do mercado expõe divisão de interpretações sobre saúde econômica do país
A segunda-feira 26 de outubro testemunhou uma retirada acelerada de investimentos do mercado acionário brasileiro, acompanhada por forte pressão sobre a cotação do dólar. Os números foram impressionantes: a moeda americana, que fechou a sexta-feira anterior cotada a R$ 4,993, terminou o pregão seguinte em R$ 5,40, representando uma variação de 8,21% em apenas um intervalo de três dias úteis. A queda das cotações nas bolsas completou o quadro de instabilidade que marcou aquele período.
O que motivou a volatilidade
Os analistas atribuem a mudança drástica nas posições dos investidores a um erro de avaliação sobre o resultado eleitoral esperado. Fundos de investimento e corretoras passaram semanas estruturando suas estratégias de alocação com base na expectativa de uma vitória da oposição, particularmente apostando em Flávio Bolsonaro. Quando o resultado das urnas saiu diferente do cenário para o qual os mercados estavam posicionados, foi necessário reajustar rapidamente todas essas estratégias. O efeito foi exatamente o que se vê em momentos de desencontro entre expectativas e realidade: movimento desordenado de saída de posições.
Economistas questionam, porém, se essa volatilidade reflete de fato as condições da economia real do país. A interpretação oferecida pela professora Juliane Furno, economista da Universidade Federal Fluminense, é que o mercado passou por uma reação emocional, mais do que uma avaliação racional dos fundamentos econômicos. Segundo ela, houve pânico em boa medida associado à frustração política com o resultado das urnas, caracterizando um movimento especulativo de curto prazo, sem necessariamente corresponder ao estado de saúde das estruturas produtivas e do consumo.
A preocupação central do mercado financeiro
Apesar dessa interpretação, o setor financeiro mantém sua preocupação focada em uma questão específica: o risco fiscal do quarto mandato presidencial. Os agentes de mercado apontam como problema central o tamanho da dívida pública bruta brasileira, que atualmente corresponde a 83% do Produto Interno Bruto. Essa proporção é vista como insustentável a longo prazo, e estudos mostram que sem intervenção, a trajetória tende a piorar.
A Instituição Fiscal Independente, órgão que funciona como observatório da situação das contas públicas, realizou cálculos indicando que seria necessário um ajuste nas contas do governo na ordem de R$ 450 bilhões para apenas estabilizar essa relação entre dívida e PIB no ano de 2027. Esse número ganhou circulação nos mercados como indicador do tamanho do desafio a ser enfrentado.
Durante a campanha eleitoral, havia propostas em circulação que buscavam endereçar essa questão. A campanha do candidato derrotado havia calculado uma possibilidade de corte de até R$ 250 bilhões em despesas obrigatórias como forma de equilibrar as contas públicas. Entretanto, essa proposta não foi mantida quando o assunto foi tratado em debate televisivo, sendo posteriormente descartada.
A discordância sobre como resolver o problema
Onde reside um dos maiores pontos de divergência entre o mercado financeiro e economistas desenvolvimentistas é justamente sobre quais ferramentas deveriam ser utilizadas para resolver a questão fiscal. O mercado frequentemente aponta a necessidade de reduzir gastos sociais em áreas como saúde e educação como solução inevitável. Economistas como Antonio Corrêa de Lacerda, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, questionam fortemente essa abordagem.
Segundo Lacerda, a origem principal do rombo nas contas públicas não está nos programas de bem-estar social, mas em duas outras estruturas: no montante colossal de juros pagos a rentistas e no sistema extenso de isenções fiscais concedidas a diversos setores da economia. O economista destaca que o componente mais significativo do déficit público é exatamente o custo financeiro, ou seja, a conta de juros. As isenções fiscais concedidas ao empresariado, por sua vez, ultrapassam R$ 600 bilhões anuais segundo seus cálculos, representando uma soma substancial que poderia ser recuperada caso houvesse revisão dessas políticas.
O conceito de equilíbrio fiscal e crescimento econômico
Um debate maior subjaz a essa discussão técnica: qual a relação entre equilíbrio das contas públicas e crescimento econômico? A visão predominante entre mercados financeiros é que o ajuste fiscal é um pré-requisito para que a economia cresça de forma saudável e atraia investimentos. A perspectiva defendida por economistas desenvolvimentistas, contudo, inverte essa sequência lógica.
Juliane Furno argumenta que o equilíbrio fiscal deve ser entendido como uma consequência do crescimento, e não como sua condição prévia. Nessa lógica, investimentos públicos geram postos de trabalho, atraem investimento privado complementar, e ampliam a capacidade produtiva do país. Quando esses gastos públicos são reduzidos, a arrecadação tributária diminui, a economia desacelera, e paradoxalmente, a relação entre dívida e PIB pode piorar em vez de melhorar, porque o denominador encolhe.
Contexto das expectativas de investimento estrangeiro
Um aspecto frequentemente negligenciado nesse debate, segundo esses economistas, é o que realmente atrai investimento estrangeiro de longo prazo para um país. A suposição comum é que estabilidade macroeconômica e contas públicas enxutas são os fatores determinantes. No entanto, o fator que genuinamente motivaria multinacionais a construir fábricas ou abrir redes de lojas em um país seria justamente a existência de um mercado consumidor robusto e em expansão.
Essa observação sugere que a ênfase atual na redução de gastos sociais poderia estar funcionando na direção oposta ao objetivo desejado. Um mercado consumidor fraco inibe investimentos privados estrangeiros, enquanto contas públicas superavitárias mas com consumo deprimido não representam um ambiente atrativo para expansão produtiva.
O que acompanhar
Os desdobramentos observáveis nos próximos meses incluirão em primeiro lugar a definição das prioridades do governo sobre o tema fiscal, particularmente se haverá ênfase em cortes de gastos sociais ou em revisão de isenções e redução da carga de juros. Em segundo lugar, será importante monitorar a reação do mercado à medida que a volatilidade inicial refluir e o sentimento especulativo arrefeça, permitindo avaliação mais sóbria dos fundamentos. Terceiro, a dinâmica do consumo das famílias nos próximos trimestres oferecerá sinais sobre se a economia consegue manter seu motor de crescimento funcionando. Finalmente, o desempenho dos investimentos estrangeiros sinalizará se o ambiente está atraente para expansão produtiva ou se a desaceleração de gastos sociais está tendo efeitos contrários aos pretendidos.
Principais pontos:
• A volatilidade do dólar e das ações na segunda-feira refletiu erro de avaliação de investidores sobre o resultado eleitoral, não necessariamente um julgamento sobre as condições reais da economia.
• O mercado financeiro está preocupado com a dívida pública em 83% do PIB e demanda ajuste fiscal de R$ 450 bilhões, mas economistas contestam que cortes em saúde e educação sejam a solução.
• Economistas desenvolvimentistas apontam que o custo de juros e as isenções fiscais com mais de R$ 600 bilhões anuais são os verdadeiros causadores do déficit público.
• O investimento público é visto como motor de crescimento que atrai investimento privado, e sua redução poderia paradoxalmente piorar a relação dívida-PIB ao desacelerar a economia.
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