Como Coronel Nunes, que morreu aos 87, foi usado em tempos de crise na CBF
Um já septuagenário dirigente do Pará fazia, em 25 de janeiro de 2016, sua primeira viagem internacional como presidente da CBF.
Eleito cerca de um mês antes como vice, o Coronel Nunes acabou se assentado na cadeira mais importante do futebol brasileiro em um momento até previsível. Afinal, foi para isso que ele fora colocado ali, na primeira das vezes que serviu de instrumento em momentos de caos na CBF durante o mandato de Marco Polo Del Nero.
Assim que pisou no hotel da Conmebol, em Luque, no Paraguai — porque no dia seguinte haveria eleição na entidade —, o Coronel recitou três palavras como cartão de visita, usando uma entonação militar:
Só faltou bater continência. Foi uma das cenas inusitadas à frente da CBF do cartola que morreu no último domingo, aos 87 anos.
Ele não mandava, nem tomava decisões. Mas virou a representação oficial da entidade. E mesmo assim, estava sujeito a chuvas, trovoadas e incidentes diplomáticos.
No lado pitoresco, veio a declaração, pouco após a eleição como VP da CBF, de que Dado Cavalcanti era o melhor treinador do Brasil. O motivo? Treinava seu amado Paysandu.
Também no Paraguai, já chamou o presidente da Fifa, Gianni Infantino, de Giannini, e errou o clube de origem do presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez. Disse que era o Cerro Porteño, mas se trata do rival, Olimpia.
Já o incidente político veio de forma mais marcante em 2018, na eleição para a sede da Copa do Mundo 2026. O Coronel votou no Marrocos e não na candidatura vencedora de Estados Unidos, México e Canadá. Furou o combinado com a Conmebol e enfureceu o presidente Alejandro Domínguez.
Nunes não sabia que o voto tinha deixado de ser secreto, como ficou claro no diálogo com jornalistas que estavam naquele Congresso da Fifa, em Moscou:
"Rapaz, eles já fizeram Copa, não é? Era bom que fosse no Marrocos. Porque nunca teve lá."
A frase do Coronel no primeiro dia que pisou na Conmebol como presidente da CBF não precisava de conectivos para resumir o quão desconexo estava o contexto da entidade naquele momento.
A posse dele foi em substituição a Marco Polo Del Nero, que assumira o mandato em março de 2015 e estava às voltas com denúncias de corrupção e envolvimento no FifaGate.
O escândalo chacoalhou as estruturas do futebol mundial e afetou, especialmente, a América do Sul. A CBF não saiu ilesa.
O grupo comandado por Del Nero precisava usar as regras do estatuto para não perder o poder. A busca por alguém que virasse o vice mais velho — e, portanto, o presidente em caso de vacância — desaguou na Federação do Pará. Foi aí que Nunes virou candidato e, depois, eleito.
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