Do Aracá ao Aracazinho: expedição científica coleta dezenas de espécies possivelmente novas na Amazônia
Equipe de 16 pesquisadores passou 19 dias investigando a biodiversidade de ecossistemas de altitude no norte do Amazonas. Amostras de solo, água e parasitas também foram coletadas para análises de saúde ambiental
Equipe de 16 pesquisadores passou 19 dias investigando a biodiversidade de ecossistemas de altitude no norte do Amazonas. Amostras de solo, água e parasitas também foram coletadas para análises de saúde ambiental
Elton Alisson, da Serra do Aracá (AM) | Agência FAPESP – Apoiado em uma pedra e com as botas imersas em um riacho tingido de vermelho pela decomposição de matéria orgânica da floresta, o herpetólogo Taran Grant esforçava-se para manter o silêncio absoluto ao seu redor, em meio a uma mata fechada, sob a mais completa escuridão. Objetivo: registrar o canto de um pequeno sapo, camuflado entre rochas à beira d’água, cuja projeção vocal surpreendia pelo descompasso com o tamanho diminuto do animal.
Os únicos referenciais visuais na penumbra total eram os minúsculos pontos de luz vermelha no gravador portátil de Grant e os longínquos feixes de luz branca das lanternas de outros pesquisadores, que também realizavam coletas de espécimes ao longo do curso d’água.
A paisagem do riacho de águas avermelhadas, visitada praticamente todos os dias pela equipe de pesquisa, era uma das mais exuberantes e destoava completamente do cenário que cercava o campo-base da expedição, a 1.260 metros de altitude, no topo de um tepui – como são chamadas as montanhas de topo plano típicas da região, no norte do Amazonas.
“Essa paisagem é totalmente diferente das que vimos até agora e se assemelha à dos Andes”, comparou Grant, apontando para os paredões rochosos que se projetam sobre o curso d’água. “A quantidade de musgo sobre as pedras, o riacho e a fauna não têm nada a ver com a Amazônia lá embaixo. Geograficamente estamos na Amazônia, mas em termos biogeográficos isso aqui é o Pantepui”, sublinhou o pesquisador, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP). Pantepui é como os cientistas se referem ao conjunto dessas formações montanhosas que pontuam o Escudo das Guianas, entre o sul da Venezuela, norte do Brasil e oeste da Guiana.
Alcançar um trecho de floresta densa como essa, conhecida como mata nebular – um tipo de floresta úmida de altitude, constantemente envolvida por neblina ou nuvens baixas e com cheiro de terra molhada –, era o principal objetivo dos cientistas desde o desembarque na montanha, em 24 de agosto, uma vez que a diversidade de animais nas porções abertas era sabidamente mais baixa. O acampamento-base foi montado no topo de um dos platôs mais ao sul da Serra do Aracá, localizado a 220 quilômetros de Barcelos (AM) e com 210 quilômetros quadrados de área.
Logo no primeiro dia, os pesquisadores constataram que a geografia hostil de arenito extremamente pedregoso dificultava a locomoção e a abertura de picadas até o ponto da floresta nebular. As duas primeiras tentativas falharam diante de relevos acidentados e paredões intransponíveis. A primeira picada alcançou apenas 650 metros e a segunda travou após pouco mais de um quilômetro, sem conseguir penetrar na mata de encosta.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em agencia.fapesp.br — o conteúdo pertence a Agência FAPESP.