Mary del Priore é a nova vítima dos neocensores
Ameaças à historiadora que ousou tocar no tema da mestiçagem mostram que o woke está vivíssimo
Whastapp Facebook Linkedin Twitter COMPARTILHAR Mary Del Priore tem uma longa trajetória como historiadora e uma contribuição que ultrapassa os limites da universidade. Autora de dezenas de livros, ela ajudou a levar ao leitor comum temas da história brasileira que muitas vezes permaneciam confinados à produção especializada. Nem por isso ela foi poupada da censura woke ao lançar, com Gian Melo, a coletânea de ensaios acadêmicos História das Mestiçagens no Brasil (Editora Unesp).
O livro trata de um tema delicado. Del Priore e os demais autores procuram devolver centralidade ao conceito de mestiçagem no pensamento sobre o Brasil – o que significa questionar a nova ortodoxia, que transforma a oposição entre brancos e negros, senhores e escravizados, na única chave descritiva aceitável para a história do país.
A historiadora põe em dúvida um dogma ainda mais fundamental. Ela contesta a ideia de que a mestiçagem brasileira só possa ser explicada pelo estupro de mulheres escravizadas por senhores brancos.
Dadas as teses, seria ingênuo esperar que não fossem duramente atacadas. O que seria tanto aceitável quanto bem-vindo, quando se acredita que o debate é o coração da vida intelectual.
Acontece que Del Priore não foi questionada. Ela recebeu insultos e ameaças nas redes sociais. A situação foi considerada suficientemente séria para que a Editora Unesp reforçasse a segurança durante a sessão de autógrafos do livro na Bienal de São Paulo.
O episódio, portanto, se junta a uma série de outros em que a liberdade acadêmica vem sendo cerceada.
Alguém pode retrucar que os episódios, na verdade, são barulhentos, mas isolados. Não é o que indica uma pesquisa do Instituto Sivis, realizada com 1.092 universitários de diferentes regiões e áreas do conhecimento. Ela constatou que 47,7% haviam evitado discutir algum tema controverso no ambiente acadêmico nos 12 meses anteriores por medo da reação dos pares.
Outro levantamento, conduzido por pesquisadores da USP e da UFBA, chegou a um resultado ainda mais preocupante entre docentes: 61% afirmaram já ter evitado certos temas por receio de sanções morais, políticas ou jurídicas.
Quando metade dos alunos e uma maioria dos professores declara medir palavras ou evitar assuntos, é sinal de que algo grave está acontecendo.
O sinal mais eloquente de que algo vai mal na Terra papagalis surgiu em maio, quando professores e pesquisadores de diferentes instituições lançaram o Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica. O documento nasceu de uma reunião realizada no Centro Universitário Maria Antonia, da USP, e reafirmou a importância de três pilares: neutralidade institucional, liberdade acadêmica e pluralismo.
A formulação central do manifesto é cristalina: “o pluralismo exige o desenvolvimento de uma cultura de discordância construtiva”.
A história de Mary Del Priore também sugere que talvez tenham sido exageradas as notícias sobre a morte do woke.
A certidão de óbito começou a ser redigida em inglês.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em oantagonista.com.br — o conteúdo pertence a O Antagonista.