Financiamento da natureza: por que a economia precisa mudar seus incentivos
O debate sobre financiamento da natureza costuma partir da mesma pergunta: onde encontraremos os recursos necessários para conservar florestas, recuperar áreas degradadas e proteger a biodiversidade? O recém-lançado relatório Financing Nature 2026 sugere que essa talvez não seja a pergunta mais importante.
O principal desafio não é apenas mobilizar mais recursos para a conservação, mas corrigir os incentivos econômicos que continuam direcionando volumes muito maiores de capital para atividades que degradam a natureza.
Em 2023, os fluxos financeiros com impactos negativos sobre a natureza alcançaram US$ 7,3 trilhões — cerca de trinta vezes o valor investido em soluções baseadas na natureza, e US$ 2,4 trilhões desse total correspondiam a subsídios públicos com efeitos negativos para o meio ambiente.
Estamos, assim, acelerando em duas direções ao mesmo tempo: enquanto cresce o financiamento destinado à proteção ambiental, crescem também os mecanismos que estimulam o desmatamento, a degradação de ecossistemas e o uso insustentável dos recursos naturais.
É essa contradição que explica por que a lacuna anual para atender às metas de conservação segue acima de US$ 1,3 trilhões — e por que a resposta não está apenas em ampliar o financiamento favorável à natureza, mas em transformar as regras que orientam as decisões econômicas de governos, empresas e instituições financeiras, alcançando políticas públicas, crédito rural, incentivos fiscais e os critérios que orientam investimentos privados.
Para o Brasil, esse debate tem relação direta com o futuro da agricultura, da segurança hídrica e da competitividade do país.
A conservação da vegetação nativa e a recuperação de áreas degradadas não dependem apenas de conhecimento técnico, mas de condições econômicas que tornem essa transição viável.
Quando o crédito não reconhece os benefícios de longo prazo dessas práticas, produtores enfrentam dificuldades para financiar investimentos cujo retorno ocorre ao longo de vários anos.
Essa lacuna aparece de forma concreta: linhas como o Plano ABC+ e o crédito rural tradicional ainda não precificam adequadamente o valor da regeneração ou mesmo da floreta em pé, e instrumentos como a Cota de Reserva Ambiental (CRA) seguem subutilizados por falta de mercado líquido e de regras claras de precificação.
O resultado é um desalinhamento entre o que faz sentido do ponto de vista produtivo e ambiental e o que é viável do ponto de vista financeiro.
Corrigir esse desequilíbrio é essencial para ampliar a produção em áreas já abertas, reduzir a pressão sobre ecossistemas nativos e fortalecer a resiliência do setor agrícola diante dos desafios climáticos e hídricos.
Experiências recentes mostram que esse desafio pode ser enfrentado.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em revistagalileu.globo.com — o conteúdo pertence a Galileu.