Uma eleição de figurinhas repetidas que pode reverter 2018
No desastrado governo chileno de Salvador Allende, entrou para o folclore político a frase de um apoiador: "é um governo de merda, mas é meu governo". A ruptura custa muito para o eleitor e é comum que ele opte pelo familiar, mesmo que não seja empolgante, em vez de se jogar numa aventura.
A eleição geral de 2018 no Brasil estava alinhada com o espírito do tempo que, dois anos antes, havia escolhido um empresário midiático, sem experiência política, para comandar os EUA, enquanto o Reino Unido dizia não à anexação europeia. A ordem mundial social-democrata, vigente desde o fim da URSS, chegava ao fim.
Nomes como Wilson Witzel, Ibaneis Rocha, Romeu Zema, Carla Zambelli, Sargento Fahur, Eduardo Girão, Janaína Paschoal e, claro, Jair Bolsonaro, saíam das redes sociais para os cargos mais importantes da política brasileira. O empresário João Doria, que venceu sua primeira eleição apenas dois anos antes, conquistava o governo de São Paulo.
Hélio Lopes, ou Hélio Negão, foi o caso mais emblemático. Ele passou de meros 480 votos para vereador de Nova Iguaçu em 2016 para 345.234 votos apenas dois anos depois, conquistando o posto de deputado federal mais votado do estado do Rio de Janeiro, um resultado que ele mesmo custou a acreditar.
Este ano, nenhum novato aparece em primeiro lugar nas pesquisas para a Presidência da República e governos estaduais dos dez maiores colégios eleitorais do país. Esses estados reúnem cerca de três quartos do eleitorado brasileiro. O pêndulo que em 2018 foi para o lado da ruptura parece estar voltando para a posição oposta.
Desnecessário dizer, mas vá lá: esse é o quadro de agosto, não uma aposta. Tudo pode acontecer. Estou falando da tendência atual, que as pesquisas mostram de maneira contundente e consistente.
O outsider é aquele nome novo na urna, que tem pouca ou nenhuma experiência em cargos eletivos, e chega por um partido estreante ou pequeno. Nem sempre é um aventureiro e são eles que renovam a política. Não há um mérito em si em ser estreante ou veterano.
O filósofo britânico Michael Oakeshott definiu o espírito conservador como aquele que prefere o familiar ao desconhecido, o testado ao não testado, o fato comprovado ao mistério, o real ao meramente possível, o próximo ao distante, o bom ao supostamente perfeito, "o riso presente à felicidade utópica". Quando o eleitor está se sentindo assim, os incumbentes e os candidatos com mais lembrança (recall) levam vantagem.
O novato tem uma barreira adicional para vencer, além do desconhecimento: o eleitor precisa visualizar mentalmente o recém-chegado vencendo a eleição e exercendo o cargo em disputa, o que exige do candidato um esforço extra para convencer o eleitor de que sua escolha não é uma loucura, o que só funciona bem em tempos de ruptura.
Na disputa pelo Planalto estão os dois representantes das forças políticas que dominam a preferência do eleitorado há 10 anos: o incumbente que tenta um quarto mandato e o herdeiro natural do seu antecessor. Mesmo ex-governadores como Caiado e Zema sofrem para ter relevância nas pesquisas.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.