Documentário relata caso de escritor alvo de 144 processos de pastores evangélicos
Depois da estreia mundial no Festival do Rio, onde conquistou o Prêmio da Associação dos Correspondentes de Imprensa Estrangeira (ACIE), o documentário “144 – Apocalipse Não”, escrito, dirigido e protagonizado pelo escritor e cineasta João Paulo Cuenca, chega à 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Além disso, o artista inaugura, no dia 24 de outubro, a exposição individual “144 – Fim é o nome do que vem antes do começo”, na galeria NND|AZECO São Paulo, reunindo cerca de 70 obras inéditas inspiradas no mesmo acontecimento.
O ponto de partida da obra se deu após uma postagem satírica no Twitter (atual X), em 2020, contra Jair Bolsonaro e a cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus.
A consequência foi imediata: Cuenca foi alvo de uma ofensiva judicial coordenada, com 144 ações por danos morais movidas por pastores espalhados pelo, acompanhada por milhares de ameaças de morte.
O escritor usou uma figura de linguagem ao dizer: o “brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal”.
Cuenca parafraseou um texto de Jean Meslier, do século 18: “o homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”.
Porém, serviu de gatilho em um momento crítico de crise sanitária e política.
Em resposta ao cerceamento e ao labirinto jurídico, Cuenca empreendeu uma jornada de mais de 10 mil quilômetros pelas cinco regiões do Brasil em busca de escuta.
Em vez de focar apenas no litígio, o filme acompanha o cineasta em templos evangélicos, cultos domésticos, procissões, rodeios, festas populares, comunidades ribeirinhas do Rio São Francisco, caminhões de pregação em Altamira e clubes de tiro nas fronteiras do agronegócio.
O documentário dá voz a uma pluralidade de personagens: desde fiéis que compartilham poesias, milagres e relatos de superação pessoal até pescadores afetados pelo assoreamento dos rios ou pela invasão do oceano em suas casas.
Paralelamente, o longa registra o périplo de Cuenca ao tentar encarar os autores dos processos em suas cidades de origem numa tentativa de diálogo.
Essa intenção acaba por se desdobrar numa investigação pessoal do autor sobre a própria natureza da fé nos dias de hoje.
Nas palavras do cineasta Walter Salles: “Bem arquitetado, afiado e com o tempo certo, ‘144 – Apocalipse Não’ é um filme importante, que nos ajuda a desvendar um Brasil a ser melhor compreendido.
Fiquei impactado pela capacidade de escuta de João Paulo, que atravessa o país e a divisão binária da sociedade para tentar entender aqueles que não pensam como ele, acessando uma prática religiosa mais polifônica do que a representada em documentários recentes sobre o mesmo tema.
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