“O Minotauro” reinventa clássico de Claude Chabrol em meio à Rússia em guerra
A guerra entre Rússia e Ucrânia é o pano de fundo para a história de um casal em crise.
Dirigido pelo russo Andrey Zvyagintsev, dos indicados ao Oscar Leviatã (2014) e Sem Amor (2017), O Minotauro chega à 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo com fortes expectativas para o Oscar 2027 – além de vencer o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes, foi o escolhido para representar a França na premiação.
O longa-metragem é uma livre adaptação de outra produção francesa, A Mulher Infiel (1969), de Claude Chabrol.
Um dos expoentes da nouvelle vague, movimento de renovação do cinema ao final dos anos 1950, Chabrol retratou as nuances de um matrimônio em crise ao focar na história de um homem que descobre que sua esposa o está traindo – e decide tirar satisfação com o amante dela.
A produção de Chabrol foi refilmada em Infidelidade (2002), de Adrian Lyne, com Richard Gere e Diane Lane.
Em sua versão, Zvyagintsev deixa o erotismo da versão de Lyne de lado e adiciona um subtexto mais político, ao posicionar seus personagens em meio à guerra da Rússia, mas pelo ponto de vista da elite que não encara os fronts de batalha: Gleb (Dmitriy Mazurov) é um empresário bem-sucedido, e tem um casamento aparentemente monótono com Galina (Iris Lebedeva).
As notícias do confronto bélico mal abalam a rotina, exceto pela demissão repentina de alguns funcionários para fugir do país.
Enquanto precisa decidir unilateralmente quais funcionários indicar para o exército russo, Gleb contrata um detetive para descobrir se a esposa está tendo um caso.
Recriando uma história já bastante conhecida, a versão de Zvyagintsev é mais ácida e política do que as anteriores.
A adaptação expõe, por exemplo, a contradição de, em meio a uma guerra, o empresário estar mais preocupado com a infidelidade da esposa do que com o conflito – uma pequenez para o tamanho da importância que ele têm como empregador e voz influente daquela região.
Além dessa alienação, Zvyagintsev enfatiza as hipocrisias dessa elite voltada para si mesma, a impunidade, as relações promíscuas com as autoridades e instituições e a fragilidade dessas relações sociais, como a relação entre Gleb e seu investigador, uma amizade patrão e empregado que toma um rumo inesperado na melhor lógica de ‘os fins justificam os meios’.
No fundo, entretanto, tanto O Minotauro quanto as versões anteriores são filmes sobre infidelidade e hipocrisia, sim, mas o desenrolar da história também chama atenção para outro ponto: o da cumplicidade.
Esse é um tempero ácido do original que faz a história funcionar tanto pela via do erotismo (no filme de Lyne) quanto pela via política na versão de Zvyagintsev.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em revistaforum.com.br — o conteúdo pertence a Revista Fórum.