Ele terminou comigo por mensagem de IA. Quais s�o os erros ao buscar as palavras certas?
Escrita por Carol Tilkian, psicanalista, pesquisadora de relacionamentos e palestrante. Fundadora do podcast e do canal Amores Possíveis e professora da Casa do Saber
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Terminar uma relação por mensagem, ainda que escrita e reescrita com todo o cuidado por quem quer colocar o ponto final, já me parece um grande descuido de nossos tempos. Tempos que se servem de argumentos como "queria deixar tudo claro" ou "escrever me ajuda a organizar os pensamentos" como desculpas para desorganizar as emoções alheias sem ter que lidar com os sentimentos ambíguos e obscuros que aparecem em todo fim.
As lágrimas, a decepção, os pedidos de explicação de porquês do que não tem porquês; as acusações que colocam lá embaixo quem termina, intercaladas com súplicas por novas chances que afundam a autoestima de quem quer tentar só mais uma vez… Tudo isso está contido nas histórias de amor. Das mais breves aos casamentos mais longevos. Chama-se ambiguidade. Humanidade.
Terminar por mensagem é tentar esterilizar um corte que, justamente por ser corte, tem mais chances de cicatrizar se houver espaço para a dor escorrer, para a ferida ficar exposta. Não se poupa o incômodo para preservar o que foi bom: é preciso deixar a sujeira à mostra para que aquilo tudo, enfim, sare.
Mas a evitação pode ganhar contornos ainda mais perversos quando, para driblar qualquer mal-estar e mal-entendido, terceirizamos à inteligência artificial a escolha das palavras mais gentis e bem-acabadas.
Muita gente já pede à IA ajuda para redigir um e-mail mais claro e assertivo. Há quem jure que foi o "Claudinho" (e a máquina ganhando apelido humano é o próprio sintoma de tempos que humanizam máquinas e desumanizam humanos) o responsável pela promoção e pela construção da persona impecável no LinkedIn .
Mas será que entramos numa era de "vale prompt para tudo"? Será que queremos levar a lógica da otimização, da performance e do erro zero, a obsessão por minimizar ruídos, para os assuntos do coração, onde o ruído é justamente o que há de mais vivo?
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.