Crise do judiciário e os efeitos sobre a sociedade (por Gaudêncio Torquato)
Uma crise do Judiciário não fica confinada aos palácios de Justiça.
Ela atravessa as ruas, alcança a economia, contamina a política e altera a relação do cidadão com o Estado.
Quando tribunais são percebidos como lentos, seletivos, corporativos ou politizados, não se enfraquece apenas a imagem de juízes e ministros.
Enfraquece-se a crença de que a lei vale para todos — patrimônio da democracia.
A crise brasileira tem várias dimensões.
Há uma crise de eficiência, expressa no volume de processos; uma crise de legitimidade, alimentada pela exposição política das cortes, por decisões individuais de impacto e mudanças de entendimento; e uma crise de integridade, agravada por suspeitas de conflitos de interesse, privilégios ou falta de transparência.
Seria injusto ignorar avanços.
O relatório Justiça em Números 2025, do Conselho Nacional de Justiça, informa que os tribunais julgaram 44,6 milhões de processos em 2024.
Ainda assim, encerraram o ano com 80,6 milhões de causas pendentes.
Os dados revelam produtividade, mas também a dimensão do labirinto.
Para o cidadão, justiça tardia pode significar emprego perdido, pensão não recebida ou uma vida à espera de sentença.
A primeira consequência é a erosão da confiança.
O Judiciário não dispõe do voto, como o Executivo e o Legislativo.
Sua autoridade repousa na Constituição, na coerência das decisões e na confiança coletiva.
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