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E se uma máquina não roubar seu emprego?

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E se uma máquina não roubar seu emprego?

Já mencionei por aqui que fui office boy em um banco em São Paulo durante a adolescência. Mas não contei que em razão da eficiência na entrega de envelopes e jornais, destreza na troca de galões de água e precisão no corte das mensagens de fax, fui promovido para a função de caixa em uma das agências do banco.

Era um salto na carreira. Dali em diante, teria direito a vale-refeição, quinze minutos para engolir uma marmita e, das 10h às 17h, bateria meu cartão de ponto para atender, ao lado de outros dez ou quinze colegas, a fila de clientes que se acumulava, em um salão cheirando a papel carbono e tinta de impressora, para pagar contas, sacar dinheiro, depositar dinheiro, descontar cheques e viabilizar todo tipo de transação financeira que um banco oferecia.

A chance de cometer erros era grande. A ferramenta tecnológica mais avançada que tínhamos para ajudar era uma calculadora com bobina de papel. Depois, vieram computadores, que também usávamos basicamente para fazer contas. No saguão de entrada da agência, no acesso para a rua, havia máquinas de autoatendimento onde os clientes podiam realizar praticamente todas as transações que faziam comigo no caixa. Sem filas, com menos erros, sem ter que divagar em conversinhas sobre o tempo, a novela, o futebol e, claro, a própria fila. Pouca gente usava os equipamentos. Tinha um lance de falta de confiança na tecnologia e tinha um lance de gostar demais de conversa.

O ano era 1998, eu tinha 17 - ou "quase 18" como dizem os que têm 17. Os primeiros portais de internet estavam surgindo e viriam a democratizar o acesso à rede dali uns anos. Mas nessa época, pouca gente tinha um computador em casa com acesso, de forma que tínhamos que ir a cyber cafés (a versão primata das lan houses, que são a versão primata de alguma coisa também) e pagar por 30 ou 60 minutos online. Faz menos de trinta anos que a vida era desse jeito, com computadores conectados presentes em lugares esporádicos e começando a se insinuar sobre atividades que eram fundamentalmente humanas até então.

Certa manhã, cheguei para trabalhar e o chefe estava no saguão com um pessoal da matriz (quando tinha gente da matriz, algo sério estava rolando e o expediente virava evento). Comentou que iriam instalar mais totens de autoatendimento. Iam também deixar mais funcionários naquela antessala para ensinar os clientes que usar as máquinas era mais eficiente. Iam, por fim, diminuir a quantidade de caixas disponíveis na parte interna da agência. Em vez de dez ou quinze pessoas (dependia da demanda), seríamos cinco. A fila aumentaria no começo, mas a premissa era de que isso ajudaria no processo de educação forçada dos clientes.

Alguns dias depois, um colega viu os novos equipamentos sendo instalados e me abordou no cafezinho: "Vai por mim, se continuar assim, essas máquinas vão fazer tudo. E daqui a pouco, nossa função vai acabar".

Saí do banco no ano seguinte. Outro dia, me dei conta de que nenhuma das funções que exerci naquela empresa existem hoje em dia.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Tilt.

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