Além de crueldade, estupidez estava no DNA do escravismo romano
Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de "1499: O Brasil Antes de Cabral"
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Eis um paradoxo histórico que todo mundo deveria ter bem claro na cabeça. Estruturas sociais e econômicas podem parecer extremamente sofisticadas, poderosas, até mesmo onipotentes para quem está dentro delas –e serem, ao mesmo tempo, burras feito uma porta. Estúpidas até a raiz dos cabelos.
Durante séculos, por exemplo, os maiores magnatas de Roma , bem como a família imperial romana, quase sempre só tinham pessoas escravizadas como seus funcionários –inclusive entre os administradores de suas fortunas– porque a legislação do império era incapaz de conceber a ideia de "pessoa jurídica", tão simples para nós.
Conforme explica a historiadora britânica Emma Southon, não havia nada na estrutura jurídica romana que, a rigor, forçasse um homem livre que trabalhava para outro homem livre a receber em mãos um pagamento em nome desse patrão e repassar o dinheiro a ele. Os dois eram vistos como indivíduos estanques, e ninguém era só o representante de uma "empresa".
A solução? Usar escravizados, é claro. Juridicamente, pessoas submetidas ao regime de escravidão não eram diferentes dos dedos da mão, de uma pá ou de uma besta de carga pertencentes a seu senhor. Vale dizer, eram extensões legais do "Dominus" (amo, mestre) e, portanto, podiam fazer tudo em nome dele. Problema resolvido. Não dá vontade de pegar uma estátua de Nero e bater a cabeça de mármore na parede para ver se ele deixa de ser burro?
A maluquice acima vem de um livro que Southon acaba de publicar. Trata-se de uma anatomia fantástica da estupidez, da crueldade e da bizarrice por trás da escravatura romana, chamado "Servus" (a palavra latina usual para "escravo") ou "Not Built in a Day" (não foi feita num dia) –os títulos das edições britânica e americana, respectivamente, são diferentes.
De um lado, a autora é mestra em identificar as implicações da lógica da escravidão para o cotidiano e a mentalidade das pessoas, com resultados que às vezes seriam hilariantes, se não fossem tão fundamentalmente desumanos.
Há, por exemplo, o caso de um manual de latim básico, preparado para instruir crianças da elite da parte oriental do Império Romano (cuja língua materna era o grego, e não a fala de Roma propriamente dita).
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www1.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha · Ciência.