Clóvis de Barros Filho reflete sobre a importância de fazer coisas que não servem para nada
Em uma sociedade cada vez mais voltada à produtividade, fazer algo simplesmente porque se gosta pode parecer estranho. Foi a partir de uma situação vivida durante uma viagem de avião que o filósofo e professor Clóvis de Barros Filho trouxe uma reflexão sobre o valor de se dedicar a atividades que não precisam, necessariamente, ter uma finalidade prática.
Clóvis contou que sempre teve interesse pelos kanjis , os ideogramas japoneses, e costumava estudá-los por prazer. Durante uma viagem de avião, enquanto estava entretido com os símbolos, uma mulher sentada ao seu lado perguntou o que ele estava estudando. Ao descobrir que se tratava de japonês, ela quis saber o motivo.
"Quer morar no Japão?" , perguntou. Depois de ouvir que não, questionou se ele daria palestras no idioma. Mais uma vez, a resposta foi negativa. Quando explicou que estudava os ideogramas simplesmente porque gostava de desenhá-los, a situação gerou estranhamento.
"Então não servem para nada, né?" , teria concluído a mulher. Clóvis, então, respondeu que tinha, sim, o hábito de fazer coisas que não serviam para nada, sempre que podia.
A história levantada pelo filósofo questiona a necessidade de transformar todos os interesses em algo útil, produtivo ou rentável. Nem todo conhecimento precisa resultar em uma profissão, assim como um hobby não precisa ter como objetivo gerar algum benefício futuro.
Para Clóvis, o próprio ato de realizar uma atividade pode ser suficiente para torná-la valiosa. Se estudar os kanjis proporciona curiosidade, prazer e um momento de interesse, essa experiência já possui significado, mesmo que não exista uma finalidade além dela.
A reflexão também pode ser aplicada a pequenos hábitos do cotidiano. Ler um livro sem intenção de aprender algo específico, desenhar sem querer se tornar artista, ouvir uma música repetidamente ou aprender algo apenas por curiosidade são exemplos de atividades que podem ter valor justamente pela experiência que proporcionam. Em sua fala, Clóvis resume essa ideia ao explicar que não precisa esperar uma mudança para que determinada atividade passe a valer a pena.
"Eu não preciso esperar, por exemplo, mudar pro Japão pra aquilo valer a pena. Já está valendo por ali mesmo" , afirma. Em meio à pressão para aproveitar cada minuto de forma produtiva, a reflexão propõe justamente o contrário: permitir que algumas coisas existam apenas porque fazem bem. Afinal, nem tudo precisa levar a algum lugar para que o momento vivido tenha valido a pena.
Para poder interagir com todos comentários, faça Login na sua conta Terra
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.terra.com.br — o conteúdo pertence a Terra.