No ano de seu centenário, em plena era das redes sociais, Michel Foucault segue interrogando o nosso tempo
Não é todo dia que um filósofo completa um século e continua nos obrigando a pensar o presente. Michel Foucault faria 100 anos em 2026, mas suas perguntas sobre poder, verdade, liberdade, desejo e os modos pelos quais nos tornamos sujeitos parecem menos interessadas em celebrar um passado do que em interrogar o nosso próprio tempo. Talvez seja justamente essa a medida da atualidade de um pensamento: não aquilo que permanece intacto, mas aquilo que, décadas depois, ainda é capaz de nos inquietar.
Foucault morreu em 1984, antes da internet, das redes sociais, dos algoritmos que hoje selecionam o que vemos e desejamos, antes de um mercado capaz de transformar quase tudo em mercadoria e de uma sociedade na qual a exposição permanente de si se tornou uma forma cotidiana de existência. Ainda assim, é difícil pensar o presente sem esbarrar em algumas das questões que ele deixou. Quem conduz nossas condutas? Como nos tornamos aquilo que somos? Que relações existem entre poder, verdade e desejo? E, sobretudo, que possibilidades restam ao sujeito quando as formas de poder se tornam capazes não apenas de controlar comportamentos, mas de participar da fabricação dos próprios desejos?
É a partir dessa inquietação que proponho algumas hipóteses sobre o possível modo de subjetivação da nossa época e sua imbricação com a natureza do desejo na contemporaneidade.
A hipótese é que os exercícios do poder hoje (globalização neoliberal de mercado) bloqueiam as possibilidades do trabalho de si sobre si (dimensão ética dos modos de subjetivação), o que vem a produzir, de fora, operacionalmente, o sujeito-consumidor, que, vivendo sob a potência de um simulacro de desejo, que é a vontade-de-consumo , não é mais capaz de fazer a experiência de si em conexão com um desejo de verdade . Para que não haja confusões terminológicas: Foucault chama governo os mecanismos, técnicas, práticas, tecnologias, saberes-poderes que, em cada época, conduzem as condutas daqueles que, sob o poder do governo, em cada época se apresentam como sujeitos.
Sujeitos-assujeitados, que, na medida em que consigam fazer a experiência do intolerável dessa situação, encontram formas de resistência , que não estão fora dos dispositivos de governo-poder, e por isso estabelecem, por dentro, um jogo de tensões de forças. Governo-sujeito-resistência não são absolutos, universais: são conjuntos de práticas éticas, políticas, estéticas. Existem sempre aqui-agora, e aí devem ser analisadas.
A resistência, a chegada do sujeito a si - os regimes de subjetivação - não se dão por dentro de alguma "teoria do sujeito". Não são manifestações "subjetivas". São um trabalho presente. Há, nesse trabalho, desejo. Desejo de si. E como si é um processo ininterrupto e incompleto, o desejo pede sempre um grau qualquer de alteridade.
Minha hipótese é que, na vigência dos modos atuais de governo, que hoje, e para nós, operam pela eficácia tecnológica da globalização neoliberal de mercado, o desejo necessário ao trabalho de si sobre si está extremamente enfraquecido.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.terra.com.br — o conteúdo pertence a Terra.