A vida em El Salvador 4 anos sob Bukele: 'O medo agora é outro'
Marta Elena González segura retrato de filho morto após ser preso no regime de exceção.
Felix Lima/BBC Caminhando por um bairro de El Salvador erguido no alto de um morro, Adélia Rosales aponta para um beco: "Aqui apareceram cinco pessoas mortas".
Fazia poucos anos que ela morava com o marido e dois filhos pequenos na Campanera, bairro nos arredores da capital San Salvador que, na década passada, ganhou fama como um dos mais perigosos do planeta.
"Estávamos saindo para a igreja com meus filhos quando ouvimos a comoção", lembra Adélia.
"Foi então que percebemos que já havia uma grande quantidade de mortos no bairro." Professora do ensino infantil, ela diz que dias como aquele eram comuns nos vários anos em que a Campanera abrigou líderes da Barrio 18, uma das facções criminosas que fizeram de El Salvador, país na América Central com 6 milhões de habitantes, a nação com a maior taxa de homicídios do mundo em 2015.
Grande parte das mortes se devia à guerra travada entre a Barrio 18 e sua rival, a Mara Salvatrucha.
Em 2022, porém, Adélia diz que o cenário começou a mudar.
Foi quando o Congresso de El Salvador, controlado por aliados do presidente Nayib Bukele, decretou um regime de exceção e impôs medidas drásticas para combater a criminalidade.
Entre outros pontos, as medidas passaram a permitir que a polícia prendesse pessoas sem mandado e as mantivesse presas por longos períodos antes de uma acusação formal, além de dificultar o acesso de detidos à defesa.
Desde o início do regime de exceção, que segue em vigor, cerca de 90 mil pessoas foram encarceradas e acusadas de ligações com as facções em El Salvador — incluindo todos os criminosos que aterrorizavam a Campanera, segundo Adélia.
Em visita à Campanera no fim de maio, a equipe da BBC News Brasil não notou qualquer sinal da presença de facções: crianças brincavam nas ruas até tarde da noite, clientes comiam em barracas de lanche e dezenas de soldados com fuzis patrulhavam a vizinhança.
"Nem em sonho imaginava que um dia viria isso tudo mudar — e tão rápido", afirma a professora.
A política implantada por Bukele é abordada em "El Salvador: quando a exceção vira regra", documentário da BBC News Brasil disponível no YouTube.
O filme trata dos efeitos do regime de exceção no cotidiano do país: de um lado, comunidades que se dizem aliviadas com o fim do domínio das facções; de outro, mães que afirmam ter filhos presos sem provas e moradores que relatam medo de se expressar ou criticar um governo que consideram cada vez mais autoritário.
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