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Brasil

Queria me importar com o eclipse

Folha · Cotidiano ·
Queria me importar com o eclipse

Escritora e roteirista de cinema e televisão, autora de “Depois a Louca Sou Eu” e "A Boba da Corte"

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Na mesa ao lado, um grupo de amigos conversa animado sobre uma festa de casamento no próximo sábado.

Quem vai se casar é Priscila, que está de férias . Portanto, não está ali para saber que seus colegas do trabalho planejam 1-beber "feito camelos sedentos", 2- só parar quando precisarem de auxílio médico e 3-levar drogas e penetras.

Priscila também não deve saber que seus colegas acham seu futuro marido 1-cafona, 2-uma pessoa sem futuro que deve falir em breve sua startup (pois deixa tudo na mão do sócio e o sócio está sempre viajando) e 3- "Ele antes saía com a Laura e a Laura fala pra todo mundo que ele é um baita narcisista".

Primário ou secundário? Se ele defeca nas calças, investe toda a libido em se acariciar e não sabe diferenciar as paredes do seu fígado do mundo externo, temos um problema complicado (maior do que o sócio viajar muito), contudo, se ele está regredido depois de sofrer decepções e traumas e vai se casar logo agora, também não tá legal. Mas imagino que eles estejam falando de algum teste de TikTok .

Estou completamente tomada pelo sotaque. Anasalado, enfrescalhado, enriquecido com ferro, ácido fólico e férias na Europa desde os dois anos de idade. Estou próxima à Faria Lima e não é culpa minha. Acabei de sair de uma gravação e precisava almoçar. Sei que teve eclipse solar esses dias. Gostaria de me importar. Adoro que o Sol esteja ali, mas só me interesso pelo que me perturba. E como uso filtro solar, boné e óculos escuros, estou de boas com o Sol.

O jovem de 27 anos tem cabelo com atitude progressista (laterais um pouco mais baixas e topo com volume e movimento) e veste camisa e calça bege de alfaiataria (estou procurando um smartwatch, mas ele está com as mãos enfiadas nas costas das amigas). Seu cabelo manda um recado, e suas roupas, outro. Já seus braços são diretos: Laura diria pra todos que ele é um baita assediador.

Ele conta que está no veneno e que, no tal casamento, "só vai parar quando entrar em coma alcoólico". A menina à sua frente pede para ele não queimar a largada: "Vou levar coisas mais divertidas". Eles riem: "Suas irmãs ou doguinhas? Não que elas não sejam cachorras"! Doguinhas são drogas? Fico feliz porque "peguei a ref".

Um camarada escanteado para a ponta da mesa, claramente o colega "tá bom, chama ele pro almoço, fazer o quê", implora por amor: "Se vocês não morrerem, domingo é meu aniversário!". Ninguém responde.

Meu Deus, em pouco mais de 10 anos minha filha terá a idade deles? Eu virei aquelas tias que ao ver jovens não pensam mais em si, mas em como devem sofrer suas mães? Para além do maior dos temores, ligados à integridade física de nossos filhos, existem tantos outros: e se minha filha falar como eles, trabalhar no que eles trabalham e comer hot dog gourmet como eles comem?

Já estou completamente tomada pelos jovens, assim como também estaria caso fosse uma mesa com idosos em silêncio ou divorciadas enebriadas pelo futuro.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www1.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha · Cotidiano.

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