Artistas indianos tensionam os limites do corpo e evocam deuses ancestrais em mostra
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Homens transam num quadro de tons terrosos, mas a pintura de T. Venkanna não evoca prazer. É que, ao redor deles, paira uma atmosfera fantasmagórica, que inscreve sombras escuras sobre seus corpos. São camadas alternativas de pele, ora opacas, ora translúcidas, que rompem limites dessas figuras e reúnem genitais masculinos e femininos.
Noutra tela, essa de Shine Shivan, o desejo também cobra um preço sombrio. Afinal, dois seres de cabelos longos são totalmente apagados pelos cachos negros, que tomam a moldura de alto a baixo, e por nuvens pretas presas aos rostos. Só se vê o contorno das faces e as línguas que buscam uma à outra.
Apesar das caveiras, dos olhos arregalados e dos membros cor de sangue, em quadros e esculturas, nem tudo são trevas na mostra " Índia ", que une artistas contemporâneos ao ver raízes culturais e espirituais do país asiático. Daí surgem, por exemplo, os trabalhos de Acharya Vyakul, que priorizam um tom mais lúdico ao reduzir a anatomia a manchas que parecem se dissolver.
Em cartaz no antigo Palácio dos Duques de Cadaval, na cidade de Évora , em Portugal , a exposição revê elos entre a biologia humana, as forças da natureza e o misticismo emanado por deuses ou mesmo por iconografias famosas.
Quanto às últimas, um bom representante é "Back to Save Humanity". Também de Venkanna, a pintura emula um campo de batalha, tomado por máscaras ancestrais, tanques de guerra, dinossauros ferozes, crocodilos que lembram aliens de Ridley Scott , um médico da peste negra e até a imagem de Saturno devorando um avião militar, em referência à obra de Goya .
De um jeito ou de outro, a tela ilustra destruições provocadas por símbolos do imaginário. "Meu trabalho surge de coisas que encontramos no dia a dia", explica o artista indiano, que ganhou fama por misturar erotismo e visceralidade.
"O corpo é essencial, pois é onde o desejo, o medo, o humor, a violência, a devoção e a vulnerabilidade coexistem. Não me interesso por ele como algo idealizado, mas como algo puramente humano e contraditório."
Já os traços de Mayank Kumar Shyam propõem uma relação harmoniosa entre homem e ambiente. Num de seus desenhos vibrantes, um tronco de madeira se confunde com um corpo sinuoso, que se desdobra em pernas, braços e peitos. Revestido por galhos, o que se vê é um ser metade árvore e metade mulher.
É um estilo que dialoga, de certa forma, com o de Jivya Soma Mashe, que utilizava estrume de vaca para retratar costumes do povo Warli, que o criou. Da pesca à observação de pássaros, ele se especializou em pintar redes com tracejados brancos, que unem grilos, peixes e outras espécies em obras que comparam a pequenez do homem à escala monumental da natureza.
Após perder a mãe aos sete anos, Mashe deixou de falar e escolheu as artes como forma de comunicação.
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