1ª quilombola doutora em Direito do Brasil compartilha trajetória
A pequena Vercilene , natural da comunidade quilombola Kalunga , no município de Cavalcante (GO), com seus 8 anos, no trabalho da roça junto a seus pais, capinando, suja de carvão. Essa é a primeira imagem do filme que passou pela cabeça de Vercilene Francisco Dias (36) ao se tornar a primeira doutora quilombola em Direito do Brasil.
Cresceu vendo as relações de conflitos que afetavam os seus, sua comunidade, de grupos dizendo que aquele território não os pertencia. Seu primeiro sonho foi se tornar militar, para "prender pessoas más", como contava seu padrinho, que lhe presenteou com soldados de brinquedo.
O sentimento de poder combater a ameaça à sua família e à sua comunidade sempre permaneceu em Vercilene. Ao longo do caminho, diante de novas descobertas e entendimentos, decidiu cursar Direito.
Após a graduação na área, a goiana se tornou a primeira mestre quilombola em Direito. E, após a aprovação e defesa da tese de doutorado "Começo, Meio e Começo" - O Direito Achado entre os Vãos do Território Quilombola Kalunga pela Universidade de Brasília (UnB), tornou-se também a primeira quilombola doutora em Direito do país.
"A universidade me ensinou, do ponto de vista tradicional, do ensino, do conhecimento do Direito e da linguagem jurídica. Mas o conhecimento que carrego, de sensibilidade e de atuação, veio de uma relação muito comunitária, construída a muitas mãos, dessa relação com o lugar onde vivi, de onde venho e do espaço que ocupo dentro do território Kalunga, dentro dessa coletividade."
Aos 11 anos, Vercilene saiu de sua comunidade para trabalhar e estudar. Foi morar em Arraias, no Tocantins. Ela destaca que, desde então, esse foi um processo de "descobertas, difícil e muito doloroso" .
Fez o ensino médio, a graduação e o mestrado em Goiânia (GO). Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Goiás (UFG).
Ao chegar à universidade, lidar com as diferenças das relações, da linguagem e da alimentação, foi um "choque cultural muito perverso" , enfatiza. O trabalho foi algo sempre muito presente. Foi necessário para a subsistência ao longo das etapas escolares.
Uma trajetória marcada por dificuldades, mas também coragem e força. "Quanto mais as pessoas tentavam me impedir de chegar a esses espaços, mais forças eu tinha para chegar. Quanto mais violência, mais determinação eu tinha."
Ao entrar na universidade, Vercilene se sentia uma pessoa invisível. Ela relata que quem mais a enxergou foram os colegas das ações de movimentos sociais.
No primeiro semestre, ingressou no Núcleo de Assessoria Jurídica Popular Universitária. Em 2013, integrou o coletivo União dos Estudantes Indígenas e Quilombolas, uma iniciativa com o intuito de oferecer formações aos próprios servidores públicos sobre quem eram esses povos, por que estavam ali e por que mereciam ser tratados como os demais.
Entre as ações dos coletivos em que participou, havia mobilização diretamente com a reitoria por espaços de lazer, para falar de cultura e da comida de suas comunidades.
Havia reuniões em que os estudantes quilombolas se encontravam para comer os alimentos que suas comunidades produzem e consomem.
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