Evangelistão não será apenas um problema dos evangélicos
Há algo nas eleições de 2026 que me preocupa mais do que a simples disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.
O Brasil não está escolhendo apenas entre esquerda e direita, dois modelos econômicos ou duas propostas para a segurança pública.
Estamos discutindo o futuro das próprias instituições brasileiras em um momento no qual o Congresso acaba de se deslocar fortemente para a direita e o candidato que terminou o primeiro turno à frente já anunciou que pretende aproveitar essa correlação de forças para mudar a Constituição.
Flávio Bolsonaro disse em 6 de outubro: “Para a gente mudar a Constituição, para a gente redemocratizar esse país”.
Não é interpretação de adversários.
Foi declaração do próprio candidato.
O PL terá 121 deputados federais e 28 senadores na próxima legislatura.
Para aprovar uma emenda constitucional são necessários 308 deputados e 49 senadores, em dois turnos em cada Casa.
O partido, portanto, não pode mudar a Constituição sozinho, mas poderá buscar esses votos entre aliados e partidos do centro e da direita.
É aí que precisamos prestar atenção.
Porque parte dos brasileiros pode estar escolhendo determinado projeto por uma razão específica e receber, depois da eleição, muito mais do que imaginava.
Alguém pode votar pensando em segurança pública e descobrir que também escolheu uma nova relação entre religião e Estado.
Pode votar pela rejeição ao PT e descobrir que ajudou a constituir uma maioria disposta a modificar o funcionamento do Judiciário.
Pode concordar com propostas econômicas da direita sem concordar que uma interpretação específica do cristianismo deva orientar educação, direitos civis, políticas para as famílias, sexualidade ou liberdade religiosa.
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